Noventa e cinco celulares por hora. Não por dia. Por hora.
É o que revela o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira, 23. Em 2025, o país registrou 830.890 aparelhos subtraídos — entre roubos e furtos. Um número que, por si só, já deveria provocar constrangimento em qualquer governo. Mas não neste.
A “cervejinha” mais cara do mundo
Lula, o mesmo presidente que um dia sugeriu publicamente que roubar celular seria coisa de quem quer “comprar uma cervejinha”, governa um país onde quase um milhão de aparelhos são arrancados das mãos de cidadãos todos os anos. A declaração, que à época soou como uma tentativa patética de minimizar a criminalidade, envelheceu como leite fora da geladeira.
Se o roubo de celular fosse mesmo para comprar cerveja, o Brasil estaria diante da maior rede de botecos clandestinos do planeta.
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Mas não é cerveja. É acesso a contas bancárias, dados pessoais, extorsão digital. O próprio anuário explica: criminosos migram do roubo para o furto, mas quando optam pelo roubo, o objetivo é obrigar a vítima a desbloquear o aparelho e entregar senhas bancárias. Não é “cervejinha”. É crime organizado com grau crescente de sofisticação.
Os números que o governo não quer enquadrar
O levantamento mostra que São Luís (MA), Belém (PA) e São Paulo (SP) lideram o ranking de subtrações de celulares por 100 mil habitantes. Das 14 capitais com as piores taxas, oito ficam no Nordeste — justamente a região que mais recebe promessas e menos recebe resultados concretos em segurança pública.
São Paulo, com 5,6% da população nacional, concentra 20% de todos os roubos e furtos de celulares do país. Um quinto do problema inteiro num único município.
É verdade que houve queda de 7,7% nas ocorrências entre 2024 e 2025, passando de 855.113 para 792.284 registros. E que, em relação a 2019, a redução chega a 25%. O governo certamente vai desfilar esses números como troféu.
Mas há um detalhe.
Os furtos — crimes sem confronto direto — cresceram 0,9%. O que caiu foram os roubos, em 18,6%. E por quê? Não por mérito de nenhuma política brilhante. O próprio anuário explica: o furto oferece menos risco ao criminoso. Sem confronto, sem testemunhas, sem chances de prisão. O crime simplesmente se adaptou. Ficou mais esperto que o Estado.
O crime se adapta. O governo discursa.
Enquanto criminosos recalculam estratégias, migram do roubo para o furto e operam com lógica de custo-benefício, o governo federal prefere relativizar. Quando não minimiza com piadas sobre “cervejinha”, terceiriza a responsabilidade para estados e municípios.
Os dados mostram que apenas Rio de Janeiro (+22,7%) e Paraíba (+21,1%) registraram aumento nas ocorrências. As demais unidades da federação viram redução. Mas o volume absoluto continua absurdo: quase 500 mil furtos e mais de 300 mil roubos em um único ano.
Os roubos se concentram nos dias úteis, com pico às sextas-feiras, e no período noturno — entre 18h e 23h. Os furtos dominam os fins de semana e os horários de grande circulação. O crime tem agenda. Tem horário. Tem método. E o cidadão brasileiro tem medo.
Menos risco para o bandido, mais desamparo para a vítima
O anuário, escrito pelos especialistas Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é cirúrgico ao apontar que o aumento do monitoramento por câmeras e da atuação policial elevou o risco dos roubos — o que empurrou o crime para o furto. Aparelhos furtados permanecem bloqueados e têm menor valor de revenda. Mas quando o criminoso opta pelo roubo, é porque quer mais: quer o desbloqueio, as senhas, o acesso ao banco.
Isso não é “cervejinha”. É uma indústria.
E enquanto essa indústria opera a 95 unidades por hora, o presidente da República segue convicto de que o problema é menor do que parece, que a culpa é sempre de outro e que uma frase espirituosa resolve o debate.
Não resolve.
O brasileiro que teve o celular arrancado da mão às 20h de uma sexta-feira sabe exatamente o que está em jogo. Não é uma cerveja. É a conta bancária, a dignidade, a sensação de que o Estado existe para proteger — e não para dar de ombros.
Noventa e cinco por hora. E contando.
