“Vocês falam da Shein como se eu conhecesse”
A declaração de Haddad chamou atenção também pelo tom. O ministro disse desconhecer a plataforma chinesa que já era, àquela altura, uma das maiores varejistas online do Brasil. “Vocês falam da Shein como se eu conhecesse. Eu não conheço a Shein. Único portal que eu conheço é o da Amazon, eu compro um livro todo dia, pelo menos”, afirmou.
Apesar de professar desconhecimento sobre a Shein, Haddad demonstrou estar ciente do cenário competitivo. Citou que as líderes do mercado eram “gigantes chinesas” — Aliexpress e Shein — e revelou que o governo já havia sido procurado por ao menos uma dessas grandes empresas manifestando interesse em se regularizar.
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Entrar no grupo A tese da concorrência leal
O argumento central de Haddad na época era de que a taxa das blusinhas criaria condições de igualdade no mercado. “Quando você faz as coisas às claras, não tem problema. Se uma sobe o preço, a outra baixa. Você vai ter concorrência em condições de igualdade”, explicou o ministro.
Ele ainda fez questão de reforçar que a postura de se regularizar era a atitude esperada de companhias responsáveis. Segundo Haddad, uma dessas grandes plataformas teria dito ao governo: “Quero me regularizar. Não quero parecer à opinião pública brasileira, ao governo brasileiro, que eu estou me valendo de um artifício para ampliar minha participação no mercado.” E completou: “Uma empresa séria não faz isso.”
O governo que defendeu agora revoga
A contradição salta aos olhos. O mesmo governo que classificou a taxação como instrumento de transparência e equidade competitiva agora opta por revogá-la. Em 2023, a taxa das blusinhas era apresentada como uma medida correta, necessária e até solicitada pelas próprias empresas que queriam operar de forma séria no Brasil. Em 2025, ela é descartada.
O resgate das declarações de Haddad não deixa margem para ambiguidade: o ministro da Fazenda não apenas apoiou a cobrança — ele a defendeu com convicção em rede nacional, associando-a a valores como lisura e seriedade empresarial. A reversão de posição, sem que o cenário concorrencial tenha se alterado substancialmente, alimenta acusações de hipocrisia e oportunismo político.
Como observou Sam Pancher ao republicar o vídeo: “Esse debate sobre a taxa das blusinhas me lembra essas aspas do então ministro de Fazenda, em 2023.” O registro ficou — e agora serve de espelho para um governo que precisa explicar por que o que era bom ontem deixou de ser hoje.