O governo que taxou suas próprias bases agora tenta apagar o rastro — bem a tempo das eleições de 2026
A história da chamada “taxa das blusinhas” é um manual de manipulação política. O governo Lula criou o imposto, defendeu com unhas e dentes, colheu os frutos amargos da impopularidade e agora, diante das urnas, tenta se passar por benfeitor ao revogar aquilo que ele mesmo impôs. É o cinismo elevado a política de Estado.
Vamos aos fatos.
A taxa nasceu em 2023, sob o discurso pomposo da “justiça tributária”. Fernando Haddad a defendia como instrumento de proteção da indústria nacional contra a suposta concorrência desleal de gigantes asiáticas como Shein e Shopee. A narrativa era conveniente: o governo, paladino dos empregos brasileiros, contra as plataformas estrangeiras que inundam o país com produtos baratos.
O que aconteceu na prática? A taxa arrecadou menos do que o prometido — R$ 5 bilhões no ano passado e R$ 1,7 bilhão neste ano. Para um governo viciado em gastar, foi uma decepção fiscal. Mas o estrago político foi infinitamente maior que o benefício tributário.
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Milhões de consumidores foram irritados. Influenciadores, jovens de periferia, pequenos revendedores — todos se uniram contra a medida. A “taxa das blusinhas” virou meme. E quando um governo vira meme, não existe marqueteiro que salve.
Mas talvez o efeito mais revelador da incompetência governamental tenha sido o golpe nos Correios. A estatal, que já agonizava financeiramente, viu o volume de encomendas internacionais de baixo valor despencar. O governo quebrou os próprios Correios em nome da “proteção do mercado nacional”. É preciso talento para errar em tantas frentes ao mesmo tempo.
Agora compare.
Os mesmos ministros que durante meses repetiram o mantra da proteção ao varejo nacional hoje tratam o fim da taxa como uma “concessão magnânima ao povo”. O ministro Guilherme Boulos, em vídeo que deveria ser exibido em aulas de cinismo político, jogou no colo do Congresso a responsabilidade por um imposto que o próprio Executivo concebeu e promoveu. A amnésia seletiva do petismo não conhece limites.
E é aí que a história complica.
Lula não revogou a taxa porque descobriu alguma convicção tardia contra o excesso de impostos. Não foi iluminação liberal. Não foi preocupação genuína com o bolso do consumidor. A explicação é a mais velha do manual político brasileiro: pesquisa eleitoral.
O Planalto percebeu que a cobrança havia se transformado em símbolo tóxico junto ao eleitorado jovem, urbano e hiperconectado — justamente a faixa que o governo precisa disputar em 2026. A “justiça tributária” de ontem virou “alívio ao consumidor” hoje, sem que ninguém no governo corasse de vergonha.
É o padrão manipulador que define este governo. Cria o problema, deixa o povo sangrar, espera a pesquisa eleitoral acusar o estrago e então reverte a medida como se estivesse fazendo um favor. É o bombeiro que ateou o fogo pedindo aplausos por trazer o extintor.
A pergunta que ninguém faz é simples: se a taxa era ruim o suficiente para ser revogada em 2026, por que foi boa o suficiente para ser criada em 2023?
A resposta é óbvia. Não era questão de política tributária. Era questão de caixa. O governo precisava de dinheiro para alimentar sua máquina de gastos e viu nas compras online uma fonte fácil. Quando a conta política ficou mais cara que a arrecadação, a convicção evaporou.
Lula governa assim: por conveniência, não por princípio. Cada decisão é calculada pelo impacto eleitoral, nunca pela coerência. O eleitor, na visão do Planalto, é um sujeito de memória curta, facilmente manipulável por gestos cosméticos de última hora.
Como disse Flávio Bolsonaro com precisão cirúrgica: “Tinha que ter eleição todo mês.” Porque só diante da urna este governo se lembra de que existe contribuinte.
Lula acha que o eleitor é otário. E o mais perturbador é que ele aposta nisso com a segurança de quem já testou a tese — e ganhou.
