Quando os números falam mais alto que as âncoras: a TV jornalística brasileira conversa consigo mesma
Existe algo mais revelador do que a audiência de um canal de televisão? Ela não mente, não faz média, não tem agenda. Ela simplesmente mostra quantas pessoas se deram ao trabalho de sintonizar.
E os números dos canais de notícias brasileiros são devastadores.
A GloboNews — a mais assistida do segmento, diga-se — registrou uma média anual de míseros 0,11 pontos pela manhã, 0,18 à tarde e 0,17 à noite. Para o braço jornalístico do maior conglomerado de mídia do país, isso não é resultado. É atestado de óbito em câmera lenta.
E é a líder do segmento.
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Agora imagine os demais. A CNN Brasil, a BandNews, a Record News — todos navegando em águas ainda mais rasas, disputando migalhas de atenção de um público que claramente decidiu buscar informação em outro lugar.
A pergunta que ninguém nos estúdios parece querer fazer é simples: por que o telespectador abandonou vocês?
Não é por falta de estrutura. Não é por falta de jornalistas. Não é por falta de horas de programação. É por falta de credibilidade. É por falta de pluralidade. É por falta daquilo que deveria ser a razão de existir de qualquer veículo jornalístico: informar sem tutelar.
O público brasileiro não ficou menos interessado em notícias. Pelo contrário — nunca se consumiu tanta informação. O que aconteceu foi mais simples e mais cruel: as pessoas migraram. Foram para as redes sociais, para os podcasts, para os canais independentes no YouTube, para qualquer lugar onde sintam que não estão sendo conduzidas por uma narrativa previamente definida.
E há um detalhe que os executivos de mídia preferem ignorar.
Quando um canal de notícias se comporta mais como porta-voz de governo — seja qual for — do que como fiscalizador do poder, o telespectador percebe. Talvez não articule a crítica com sofisticação acadêmica, mas faz algo muito mais eficaz: muda de canal. Ou desliga a TV.
A queda de audiência dos canais jornalísticos não é um problema técnico. Não se resolve com cenários novos, âncoras mais jovens ou aplicativos de segunda tela. É uma crise de confiança. O público não acredita que está recebendo informação — acredita que está recebendo uma versão curada, filtrada, editorializada sob verniz de neutralidade.
E a neutralidade artificial é o pior dos mundos. É mais desonesta do que a opinião declarada, porque finge não ter lado enquanto escolhe cuidadosamente quais fatos destacar e quais enterrar.
Compare com o que acontece nos canais independentes. Gostemos ou não de seus vieses, eles ao menos declaram suas posições. O espectador sabe o que está consumindo. Nos canais tradicionais, a pretensão de imparcialidade se tornou uma camisa de força que sufoca a relevância.
O resultado está nos números. E números não fazem política.
A TV jornalística brasileira precisa se olhar no espelho e fazer uma pergunta incômoda: será que o problema não é o público, mas o produto? Será que décadas de jornalismo endogâmico, de redações que pensam igual, de pautas que repetem o mesmo enquadramento, não produziram exatamente o resultado que os índices de audiência mostram?
Não é coincidência que a crise de audiência dos canais de notícias coincida com o crescimento exponencial de mídias alternativas. O mercado — sim, o mercado — está funcionando. O consumidor de informação votou com o controle remoto. E votou contra.
Quando 0,18 ponto de audiência é o teto do seu melhor horário, não existe spin que salve. Não existe prêmio de jornalismo que compense. Não existe nota de repúdio que reverta.
A televisão jornalística brasileira não está morrendo por falta de recursos. Está morrendo por falta de relevância. E relevância, ao contrário do sinal de TV, não se transmite por decreto.
