Mas há um detalhe.
Esses gastos representam mais que o triplo do que o governo Bolsonaro gastou em propaganda no ano eleitoral de 2022. Mais que o triplo. E o Tribunal Superior Eleitoral? Assiste a tudo com a serenidade olímpica de quem não enxerga nenhuma irregularidade. Nenhuma. Zero.
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Entrar no grupo A pergunta que ninguém faz é simples: onde termina a publicidade institucional e onde começa a campanha eleitoral antecipada?
A resposta, evidentemente, depende de quem está no poder. Quando o ocupante do Planalto é aliado das instituições de controle, a linha entre propaganda e promoção eleitoral simplesmente se dissolve. Quando não é, cada centavo gasto vira motivo de investigação.
E é aí que a história complica.
R$840 milhões não compram apenas anúncios. Compram silêncio. Compram manchetes suaves. Compram a hesitação de um editor antes de publicar uma reportagem incômoda. Criam uma relação de dependência financeira entre o governo e veículos de comunicação que, em ano eleitoral, funciona como um seguro contra notícias negativas. Não é teoria da conspiração — é contabilidade.
Agora compare: enquanto a máquina de propaganda opera a pleno vapor, o próprio Boletim Macrofiscal do Ministério da Fazenda prevê retração do agronegócio (-1,4%) e da indústria (-0,4%) no segundo semestre de 2026. O setor de serviços — o único que ainda respira — deve crescer míseros 0,2%. É um governo que gasta como se fosse rico para esconder que está quebrando.
E os R$840 milhões fazem falta. Fazem falta nos hospitais lotados, nas escolas sem estrutura, na segurança pública que não funciona. Cada real despejado em propaganda institucional é um real subtraído de áreas que o brasileiro sente na pele todos os dias.
Não é coincidência que o ministro Dario Durigan tenha encontrado tempo para chamar Javier Milei de “palhaço”. É mais fácil atacar o vizinho do que explicar os próprios números. A Argentina — aquela que estava em hiperinflação de 211% em 2023 — cresceu 4,4% em 2025 e projeta entre 3% e 3,5% em 2026. Enquanto isso, o jovem ativista da Fazenda brasileira anuncia retração. Quem é o palhaço mesmo?
As pesquisas eleitorais, por sua vez, parecem operar em uma realidade paralela. O instituto Quaest, sempre muito atencioso com o governo petista, virou motivo de piada entre especialistas. No Pará, os “indecisos” lideram a corrida eleitoral com 26%. No Rio de Janeiro, onde a briga é polarizada e os candidatos são conhecidos, a Quaest encontra 64% de indecisos na pesquisa espontânea. É um número que desafia a estatística, a lógica e a boa-fé.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro — agora candidato oficial ao Planalto — diz que seguirá nas ruas apesar das ameaças de morte. E o presidente da China, Xi Jinping, telefona para Lula em gesto de apoio que nenhum grande veículo classificou como “interferência estrangeira”. Quando o apoio vem do lado certo, muda de nome.
O senador Sergio Moro resumiu bem a crise diplomática com a Argentina: “Não tem o que reclamar quando Milei deu o troco.” Lula fez campanha pelo adversário de Milei na eleição argentina. Milei respondeu chamando Lula de “presidiário” e Alexandre de Moraes de “lixo careca”. A convocação de embaixadores não surtiu efeito. Buenos Aires não vai pedir desculpas.
O deputado Osmar Terra talvez tenha feito o diagnóstico mais preciso: “O problema do Lula é que ele não tem horizonte para mostrar, já que ele não tem horizonte nenhum.”
Quando um governo não tem resultados para apresentar, o que lhe resta? Propaganda. Muita propaganda. R$840 milhões em propaganda. Paga por você, para convencer você de que tudo vai bem — enquanto tudo desmorona.
A máquina de propaganda não é um instrumento de informação. É um instrumento de poder. E quando o Estado gasta quase R$1 bilhão para falar bem de si mesmo no ano em que o povo decide quem governa, não estamos diante de publicidade institucional. Estamos diante de uma campanha eleitoral financiada pelo contribuinte — com a bênção silenciosa de quem deveria fiscalizar.