Enquanto o Brasil enfrenta crises reais, a máquina estatal gasta tempo e dinheiro público protegendo a reputação do chefe de governo
Existe uma polícia federal para investigar tráfico internacional, lavagem de dinheiro, corrupção sistêmica e crimes que ameaçam a segurança do país. E existe, aparentemente, uma polícia federal para cuidar do ego presidencial.
Os números não mentem — e incomodam.
Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, o governo Lula acumula dez inquéritos abertos pela PF para investigar supostos crimes contra a honra do presidente da República. Em três anos e meio de mandato, o número já é o dobro dos cinco inquéritos registrados durante toda a gestão Bolsonaro.
Dobrou.
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Todos — sem exceção — foram requisitados pelo Ministério da Justiça, que a legislação designa como responsável por tomar providências nesses casos. A lei existe, é verdade. Mas uma coisa é a previsão legal. Outra, bem diferente, é o entusiasmo com que se recorre a ela.
E é aí que a história complica.
Apesar da proliferação de inquéritos, os resultados são pífios. De todos os casos abertos nos dois governos, apenas cinco resultaram em indiciamento — quatro sob Lula e um sob Bolsonaro. Um inquérito ainda está em andamento. A PF não revelou detalhes sobre nenhum deles.
Ou seja: a máquina estatal é acionada com frequência crescente, consome recursos públicos, mobiliza agentes federais — e entrega quase nada. A pergunta que ninguém faz é simples: isso é proteção institucional da Presidência ou proteção política de Lula?
Porque há uma diferença brutal entre defender a investidura do cargo e transformar a Polícia Federal em balcão de queixas do ocupante temporário do Planalto. O cargo de presidente da República merece proteção institucional. Mas quando o aparato policial do Estado é mobilizado sistematicamente para perseguir críticos, o que se protege não é a instituição — é a vaidade de quem a ocupa.
Agora compare. Durante o governo Bolsonaro, a esquerda brasileira tratava qualquer movimento semelhante como sintoma de autoritarismo. Investigação contra crítico do presidente? Aparelhamento. Uso da PF para fins políticos? Fascismo tropical. A indignação era instantânea, sonora e onipresente.
O silêncio agora é ensurdecedor.
Não é coincidência. É seletividade. O problema nunca foi o mecanismo — era quem o manejava.
A transparência também deixa a desejar. A PF se recusa a revelar detalhes dos casos. O contribuinte paga a conta, mas não tem direito de saber quem foi investigado, por qual motivo específico, nem qual foi o desfecho. O poder exercido às escuras é poder abusado — e neste caso, é poder abusado com dinheiro público.
Um Estado que dobra o uso de inquéritos policiais para proteger a honra de seu chefe não está fortalecendo instituições. Está as degradando. Está dizendo ao cidadão comum que a PF tem tempo e recursos de sobra para cuidar de ofensas ao presidente, enquanto filas de investigações realmente relevantes se acumulam.
A honra de qualquer presidente se defende com bom governo — não com boletim de ocorrência.
