Quando o presidente incita, a turba executa — pelo menos nas redes
O que acontece quando o ocupante do cargo mais poderoso do país aponta o dedo para um adversário político e pergunta, diante de uma plateia, “o que merecem os traidores”?
Agora sabemos.
Há algumas semanas, o presidente Lula subiu ao palanque e chamou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, de “traidor da pátria” e “vendilhão”. Não foi um deslize. Não foi um improviso infeliz. Foi uma fala calculada, proferida com toda a autoridade institucional que o cargo confere.
O resultado foi tão imediato quanto previsível: em menos de 24 horas, a defesa do senador contabilizou mais de 1.600 postagens no X contendo ameaças explícitas de morte.
Entre no grupo do ContraFatos e acompanhe os destaques em primeira mao.
Mil e seiscentas.
Em um único dia.
Agora compare.
Se qualquer parlamentar de oposição tivesse feito o mesmo — apontado para um aliado do governo, chamado de traidor e lançado à plateia uma pergunta que evoca linchamento — o que teria acontecido? Inquérito no STF em questão de horas. Manchetes em todos os portais. Editoriais sobre a ameaça à democracia. Pedidos de cassação. O circo completo.
Mas quando é Lula, o autoproclamado guardião da democracia, o tratamento é outro. A fala é relativizada. O contexto é invocado. A intenção é suavizada. E as 1.600 ameaças de morte? Viram estatística de rodapé.
Eis a seletividade em estado puro.
A pergunta que ninguém faz é simples: desde quando o Palácio do Planalto virou tribuna de linchamento simbólico? Desde quando é aceitável que um presidente da República use seu palanque para pintar um alvo nas costas de um adversário político?
A resposta, claro, é que nunca foi aceitável. Mas a indignação institucional no Brasil tem lado. Funciona como um radar seletivo: detecta com precisão milimétrica qualquer ameaça vinda da direita e se torna misteriosamente cego quando a incitação parte da esquerda.
Violência política não é questão de espectro ideológico. É questão de civilização. E um presidente que joga lenha na fogueira do ódio, que transforma o cargo em instrumento de perseguição retórica e que banaliza a linguagem da violência não pode se apresentar como defensor da democracia.
Democrata que incita não é democrata. É um demagogo com foro privilegiado.
Flávio Bolsonaro pode e deve ser criticado por suas posições, seus votos, seus projetos. Isso é política. Agora, transformá-lo em alvo de uma turba digital com perguntas retóricas sobre o destino de “traidores” é outra coisa. Tem nome. E o nome não é democracia.
Se a lei vale para todos — e dizem que vale —, então o mesmo rigor aplicado a qualquer cidadão que ameaça autoridades públicas deveria se aplicar a quem, do alto do poder, acende o pavio.
Mas não se aplica. Nunca se aplica.
E é exatamente por isso que a pergunta mais incômoda não é “o que merecem os traidores”. É outra: o que merece uma República que tolera que seu presidente faça isso — e finja que nada aconteceu?
