Aristocrata italiano é suspeito de participar de ‘safáris humanos’ contra civis durante a Guerra da Bósnia
Aristocrata italiano de Milão é acusado de pagar para atirar em civis inocentes durante safáris humanos na Guerra da Bósnia nos anos 1990
Por ContraFatos 18/06/2026 Atualizado em 18/06/2026
Membro de força especial da Bósnia abre fogo contra sérvios durante o cerco a Sarajevo — Foto: AFP
Investigações em vários países europeus miram elite social que teria pago para atirar em pessoas inocentes em Sarajevo nos anos 1990
Revelações perturbantes sobre os chamados ‘safáris humanos’ praticados durante o cerco sérvio a Sarajevo continuam a alimentar investigações criminais em diferentes países da Europa. Um aristocrata italiano, cuja identidade não foi divulgada, é o mais recente suspeito de ter desembolsado valores altíssimos para caçar civis indefesos ao lado de franco-atiradores durante a Guerra da Bósnia, na década de 1990.
Turistas macabros nas colinas de Sarajevo
De acordo com informações publicadas na quarta-feira (17/6) pelo jornal “The Times”, de Londres, o homem, pertencente a uma família abastada de Milão e obcecado por armamento militar, teria viajado até Sarajevo (Bósnia) para se posicionar junto a homens armados sérvios nas colinas que cercavam a cidade. Desses pontos elevados, os estrangeiros miravam deliberadamente civis que transitavam nas ruas enquanto a guerra devastava a região.
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Atualmente, o aristocrata é procurado por autoridades judiciais italianas para prestar depoimento. Segundo as apurações, ele teria se gabado repetidamente de sua passagem por Sarajevo durante jantares com amigos próximos. Uma ex-companheira do suspeito também prestou declarações relevantes à polícia, relatando que o homem contou ter viajado de avião para Sarajevo com “pessoas que se tornavam franco-atiradores nos fins de semana para matar muçulmanos”.
A mesma mulher apresentou às autoridades uma foto de uma autorização que o aristocrata usou para entrar em zonas de guerra, além de anotações pessoais que ele mantinha sobre suas supostas mortes.
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O escritor e investigador Ezio Gavazzeni confirmou ao jornal londrino a gravidade das denúncias. “Fui procurado por uma testemunha que relatou que o aristocrata havia se gabado para amigos sobre o safári mais de uma vez durante jantares”, disse Gavazzeni.
Documentário de 2022 impulsionou as investigações
As alegações sobre esses “passeios de caça humana” envolvendo membros da elite social ganharam notoriedade pública com o lançamento do documentário “Sarajevo Safari”, de 2022, dirigido pelo cineasta esloveno Miran Zupanic. Desde então, investigadores italianos já interrogaram quatro supostos atiradores ligados aos crimes.
Na quarta-feira, a casa de um dos suspeitos na cidade de Alessandria — localizada a cerca de 100 quilômetros ao sul de Milão — foi alvo de uma operação de busca e apreensão. Durante a diligência, a polícia recuperou um silenciador.
Áustria também investiga
O caso não se restringe à Itália. Autoridades austríacas abriram formalmente uma investigação contra dois suspeitos conectados às denúncias dos ‘safáris humanos’ durante o cerco sérvio a Sarajevo. O Ministério da Justiça da Áustria confirmou que o procedimento foi instaurado em 25 de abril, classificando o caso como relacionado a possíveis crimes de guerra extremamente graves.
A iniciativa ganhou impulso com a atuação da ex-ministra da Justiça austríaca Alma Zadic, do Partido Verde, que tem pressionado pelo aprofundamento das apurações. Relatos indicam que participantes dos safáris humanos vinham também de Reino Unido, França, Alemanha, Espanha, Rússia, Canadá e EUA.
‘Listas de preços’ para matar civis
Entre os aspectos mais chocantes do caso estão as supostas “listas de preços” que os grupos armados sérvios utilizavam para cobrar dos estrangeiros. Documentos e relatos citados tanto pelo “The Times” quanto pelo livro “Pay and Shoot”, do jornalista croata Domagoj Margetic, detalham os valores cobrados conforme o perfil das vítimas.
Homens e mulheres adultos teriam custado cerca de 80 mil marcos alemães da época.
Mulheres jovens valeriam mais do que o valor padrão.
Mulheres grávidas eram consideradas “alvos premium”, podendo chegar a 110 mil marcos.
Há testemunhos afirmando que crianças também eram deliberadamente escolhidas como alvos.
O cerco mais longo da guerra moderna
O cerco de Sarajevo perdurou por quase quatro anos e é reconhecido como o mais extenso da história bélica contemporânea. Ao longo do conflito, mais de 10 mil pessoas perderam a vida em decorrência de bombardeios e ataques de franco-atiradores dirigidos contra civis na capital da Bósnia e Herzegovina. A principal avenida da cidade ganhou fama mundial como “Sniper Alley” (“Alameda dos Franco-Atiradores”), em razão da frequência brutal dos disparos.
Encontro judicial internacional marcado para junho
Magistrados de diversos países europeus devem se reunir em 29 de junho na sede da Agência da União Europeia para a Cooperação Judiciária Penal, em Haia (Holanda), para discutir e coordenar as diferentes investigações sobre os ‘safáris humanos’. O encontro sinaliza uma escalada nos esforços internacionais para responsabilizar os envolvidos naquilo que pode configurar crimes de guerra de extrema gravidade.
Membro de força especial da Bósnia abre fogo contra sérvios durante o cerco a Sarajevo — Foto: AFP