Montadora é responsabilizada por condições degradantes em obra na Bahia, apesar de alegar terceirização
A montadora chinesa de veículos elétricos BYD passou a integrar a versão mais recente da chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta segunda-feira (06/04). A inclusão ocorreu após a conclusão de um processo administrativo que responsabilizou a empresa por irregularidades durante a construção de uma fábrica em Camaçari, na Bahia.
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De acordo com as autoridades, trabalhadores chineses foram submetidos a condições consideradas ilegais, o que motivou a decisão.
Fiscalização encontrou centenas de trabalhadores em situação irregular
As investigações começaram após uma operação de fiscalização realizada em dezembro de 2024, quando 163 trabalhadores foram resgatados. Com o avanço das apurações, esse número subiu para 224.
Auditores fiscais rejeitaram a justificativa apresentada pela BYD de que os empregados estavam vinculados exclusivamente a uma empresa terceirizada. Segundo o órgão, ficou caracterizada a relação direta entre a montadora e os trabalhadores.
Jornadas extensas e condições degradantes
A fiscalização identificou uma série de irregularidades. Os contratos previam jornadas de até dez horas diárias, seis dias por semana, com possibilidade de extensão — ultrapassando o limite legal de 44 horas semanais.
Também foram constatadas condições precárias nos alojamentos, incluindo superlotação, ausência de colchões e armários, além de restrições no acesso a instalações sanitárias. Em um dos locais, havia apenas um vaso sanitário para 31 pessoas.
Entrada irregular de trabalhadores no país
Outro ponto apontado nas investigações diz respeito à forma como os trabalhadores chineses chegaram ao Brasil. Segundo relatos, eles teriam sido trazidos “sem o devido registro e em desacordo com a legislação vigente”, sendo apresentados às autoridades como mão de obra técnica.
Na prática, no entanto, exerciam funções ligadas à construção civil.
Indícios de fraude documental
O Ministério Público do Trabalho (MPT) também identificou possíveis irregularidades na documentação apresentada pela empresa às autoridades migratórias brasileiras, levantando suspeitas de fraude.
Inclusão na lista ocorre mesmo após acordo
A presença da BYD na lista foi confirmada após o encerramento do processo administrativo no MTE, com esgotamento das possibilidades de recurso. Pelas regras, o nome da empresa deve permanecer no cadastro por pelo menos dois anos.
Mesmo acordos firmados posteriormente não impedem essa inclusão.
Acordo milionário com o MPT
Em janeiro, a montadora e outras duas empresas envolvidas nas obras firmaram um acordo de R$ 40 milhões com o Ministério Público do Trabalho. O valor é destinado ao pagamento de indenizações aos trabalhadores resgatados e à reparação por danos morais coletivos.
Na ocasião, a BYD declarou manter um “compromisso inegociável com os direitos humanos e trabalhistas”.
Medidas anunciadas pela empresa
Ainda em abril de 2024, a empresa havia informado a adoção de medidas para combater maus-tratos no canteiro de obras, incluindo a instalação de câmeras de vigilância na unidade de Camaçari.
Atualização da lista inclui outros nomes
Além da montadora, a atualização mais recente da lista suja acrescentou 168 novos nomes, entre pessoas físicas e jurídicas, elevando o total para 613 empregadores.
Entre os incluídos está o cantor Amado Batista, responsabilizado após fiscalizações realizadas em 2024, em Goiás, relacionadas a condições de trabalho no cultivo de milho.
A defesa do artista nega irregularidades e afirma que as pendências foram resolvidas por meio de acordos com as autoridades.
Importância da lista suja
A lista é considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um dos principais instrumentos no combate ao trabalho escravo contemporâneo. Ela é utilizada por empresas e instituições financeiras como referência para análise de risco, podendo impactar o acesso a crédito e contratos comerciais.
Não consigo compreender a relevância que estão dando à BYD, uma empresa que, ao meu ver, carrega práticas questionáveis e pode refletir um modelo de exploração que não condiz com os interesses do trabalhador brasileiro.
É difícil aceitar esse tipo de acolhimento em um país já fragilizado por uma gestão ineficiente, marcada por sucessivos escândalos, desequilíbrio fiscal e problemas estruturais graves. Nesse cenário, a abertura de espaço e incentivo a empresas com perfil meramente oportunista parece mais um sinal de desorganização e falta de critérios do que de desenvolvimento sustentável e responsável.