Os interesses do empresário eram variados. No Ministério da Saúde, pretendia obter autorização para produzir medicamentos à base de canabidiol e, na sequência, vendê-los ao próprio governo. Já na Dataprev, buscava aliados que pudessem eliminar barreiras tecnológicas que impediam descontos em folha de empréstimos consignados de aposentados.
Diálogos interceptados expõem pressões sobre Lulinha
A lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e contratada de Careca, aparece em diversos diálogos interceptados pelos investigadores. Em dezembro de 2024, ela enviou uma mensagem a um interlocutor dizendo: “Falei para o Fábio q se ele articular logo o negócio do canabidiol vc vai pra África com a gente”.
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Entrar no grupo Para a Polícia Federal, esse diálogo — um entre dezenas que tratam das relações nebulosas de Lulinha — permite “verificar que possivelmente o articulador de todo o esquema realizado pelo grupo é Fabio”. No relatório anexado ao inquérito, a corporação registrou: “Por ser filho do Presidente da República ele pode ter obtido acesso às pessoas certas que têm o poder decisório para aprovar e levar adiante projetos que envolvam elevado dispêndio financeiro”.
Cobrança direta: ‘Tá na folha? Tem que resolver’
Em 23 de janeiro de 2025, Roberta voltou a pressionar em mensagem ao mesmo interlocutor: “Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer”. Poucos dias antes, em 16 de janeiro, a lobista e Gustavo Gaspar, amigo e sócio de Careca, trocaram mensagens reveladoras. Gustavo relatou uma afirmação que teria partido de Camilo Antunes: a de que Roberta “tá na folha” de pagamentos dele e, por isso, precisava resolver os impasses que travavam seus negócios.
Segundo os investigadores, é possível inferir que outros associados da lobista, como Lulinha e o empresário Fernando Bittar, também figuravam no rol de pagamentos do Careca. O relatório da PF destaca: “Destaca-se a afirmação de GUSTAVO ‘Q ta na folha’, o que pode ser entendido como estar na folha de pagamento, ou seja, ANTONIO pode ter o dever de repassar valores periodicamente a ROBERTA e seus associados. (…) Com referência a ROBERTA, foram identificadas remessas de valores de empresa ligada a ANTONIO para empresa ligada a ROBERTA desde novembro de 2024 até abril de 2025, num total de quase 1,5 milhões de reais”.
Mudança de Lulinha para a Espanha levanta suspeitas
Fábio Luís Lula da Silva deixou o Brasil em julho de 2025, período em que a Polícia Federal já fechava o cerco contra a quadrilha responsável pelos bilhões desviados do INSS. A operação de mudança do primogênito do presidente para a Espanha era mantida em sigilo até mesmo da cúpula do PT, mas não de Roberta Luchsinger.
A lobista registrou em diversas ocasiões a necessidade de acelerar as transações do grupo, justificando: “porque tenho que tirar o Fábio e a família do país até julho”. Ela não explicou o motivo da mudança repentina. A Polícia Federal, por sua vez, mantém suas próprias suspeitas sobre a saída do país.