Com 82% das famílias afogadas em dívidas, presidente celebra o “endividamento saudável” — como se existisse afogamento confortável
Existe uma arte rara na política brasileira: a capacidade de olhar para um desastre e chamá-lo de oportunidade. Lula acaba de elevar essa arte a um novo patamar.
Na quinta-feira, 13 de agosto, o presidente da República declarou, sem pestanejar, que “não é contra as pessoas estarem endividadas”. Defendeu o que chamou de “endividamento saudável” — aquele em que as famílias tomam crédito para comprar bens e “aumentar seu patrimônio”.
Três dias antes, uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio mostrou que 82% das famílias brasileiras têm dívidas pendentes. Entre as que ganham até três salários mínimos — R$ 4,8 mil —, o número bate em 85%.
Mas, para o presidente, está tudo bem. Dívida boa é dívida de geladeira.
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Agora compare.
Quando o assunto são apostas esportivas, aí sim Lula enxerga o perigo do superendividamento. Aí sim o governo lança programas, cria exigências, impõe autoexclusão de sites de bets. O Desenrola, relançado em julho pelo Ministério da Fazenda, passou a condicionar a renegociação de dívidas ao abandono das apostas online.
Ou seja: se você se endividou comprando uma televisão que não podia pagar, o governo te aplaude. Se se endividou apostando, o governo te resgata — desde que você se submeta ao controle estatal. A lógica não é proteger o cidadão. É escolher qual consumo o Estado aprova.
E é aí que a história complica.
A fala de Lula não é apenas uma declaração infeliz. É uma confissão de modelo econômico. O governo precisa que as famílias consumam. Precisa que o crédito gire. Precisa que os números de varejo apareçam bonitos nas planilhas do Planalto. Se para isso milhões de brasileiros precisam se pendurar em parcelas que comprometem metade da renda, paciência — é “endividamento saudável”.
A pergunta que ninguém faz é simples: saudável para quem?
Para a família que ganha três salários mínimos e já deve 85% do que tem? Para o trabalhador cujo salário médio caiu de R$ 4,5 mil em janeiro para R$ 4,3 mil em junho? Ou para o governo, que precisa de indicadores de consumo para sustentar a narrativa de que a economia vai bem?
Não é coincidência que essa declaração tenha vindo num evento sobre dados de emprego. O governo apresentou 62,9 milhões de vínculos formais — número que, isolado, parece robusto. Mas quando se descobre que o salário médio está em queda e que a esmagadora maioria das famílias está endividada, o quadro muda completamente. Emprego sem renda real é apenas uma forma organizada de pobreza.
Mas há um detalhe que revela ainda mais.
Lula disse que o governo deve “estimular o consumo de eletrodomésticos e utensílios dentro da capacidade financeira das famílias”. A frase é quase poética na sua contradição. Se 82% das famílias já estão endividadas, qual exatamente é a “capacidade financeira” que o governo pretende respeitar? A que já foi ultrapassada faz tempo?
O que o presidente fez foi naturalizar a dívida como modo de vida. Transformou o endividamento crônico em política pública. Em vez de atacar as causas — juros estratosféricos, carga tributária sufocante, inflação que corrói o poder de compra —, preferiu abraçar o sintoma e chamá-lo de virtude.
Isso tem nome. Chama-se populismo de crédito. É a versão financeira do pão e circo: em vez de criar as condições para que as pessoas comprem à vista, o Estado as empurra para o parcelamento eterno e celebra o resultado como inclusão social.
O livre mercado funciona quando o consumidor tem liberdade e informação para tomar suas decisões. Não quando o próprio presidente da República diz que estar endividado é normal — e que o papel do governo é decidir em que tipo de dívida você pode se afundar.
Lula não está defendendo o crédito. Está defendendo a dependência. E um povo endividado é um povo que não questiona, não arrisca, não empreende. É um povo que precisa do próximo programa de renegociação. Do próximo Desenrola. Do próximo favor do Estado.
Talvez seja exatamente esse o ponto.
