Vorcaro narrou ao ministro que, apesar de ter informações relevantes para compartilhar, os delegados responsáveis pela negociação de sua colaboração premiada se recusaram a ouvir o que ele tinha a dizer. Eis o que declarou o banqueiro:
“DEPOENTE ‐ Assim, eu estou… como eu disse, eu estava querendo falar de um modo mais genérico aqui, para não enfrentar os temas. O advogado pontuou aqui, e eu posso, efetivamente [ininteligível], eu vou dar um exemplo de situações que aconteceram, como, por exemplo, o próprio diretor‐geral, o Andrei, que viajou para eventos comigo, com namorada, teve ingressos, teve uma relação pretérita a esse caso, especificamente. E aí, depois, os delegados que estão fazendo a colaboração, que estão escutando o que eu tenho para falar, não quiseram escutar, não quiseram fazer. Então, a pedido dele, só para completar, que eu falei de um modo muito genérico, mas o meu receio maior também é sobre isso, e acho que vocês vão de convir comigo o motivo pelo qual eu tenho bastante receio, mas esse exemplo de situações que aconteceram de modo pretérito, anterior à operação, são, também, das causas que me fazem acreditar que as intimidações ou a ausência de interesse em escutar a minha colaboração quando [ininteligível].”
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Entrar no grupo Confirmação direta ao ministro André Mendonça
Diante da gravidade das alegações, o juiz presente na audiência pediu confirmação expressa ao depoente:
“JUIZ ‐ O senhor falou um pouco baixo, só para ver se eu entendi, o senhor está se referindo ao Diretor‐Geral da Polícia Federal o Doutor Delegado Andrei Rodrigues?”
“DEPOENTE ‐ Isso, isso.”
Ministério Público questiona e Vorcaro detalha envolvimento de pessoas do governo
Na sequência, o representante do Ministério Público também inquiriu Vorcaro sobre a natureza dos fatos que ele pretendia narrar e se a relação pessoal com Andrei Rodrigues se confundia com os eventos objeto da colaboração premiada:
“MINISTÉRIO PÚBLICO ‐ Obrigado, Excelência, bom dia a todos, bom dia, senhor Daniel, tudo bem? São pequenas perguntas de ajuste. O senhor mencionou a relação com o senhor Andrei, mencionou também o interesse e a construção de proposta de acordo de colaboração. Essa relação com o senhor, esses eventos de relação que o senhor mencionou com ele, algum fato, ele passa também pelos fatos que o senhor pretendia narrar nessa colaboração?”
A resposta de Vorcaro foi direta:
“DEPOENTE ‐ Sim, porque toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo. E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar. Eu pretendia…. Na minha opinião, os fatos estão tão diferentes da realidade, doutor, que só a verdade hoje vai me libertar. Então, eu quero muito, desde… tem alguns meses que eu quero falar a verdade.”
Acusação de bloqueio e reação política
Além de citar nominalmente o chefe da Polícia Federal, Daniel Vorcaro acusou Andrei Rodrigues de ter atuado para barrar a formalização de seu acordo de colaboração premiada. O banqueiro manifestou receio em relação a intimidações e disse acreditar que a recusa dos delegados em ouvi-lo estaria diretamente ligada à influência do diretor-geral.
Em desdobramento político do caso, o partido Novo pediu a prisão preventiva e o afastamento do diretor-geral da PF de suas funções.