Ministro relator do caso Master expôs tentativa de acordo que blindaria integrantes do Supremo durante julgamento tenso na Segunda Turma
O advogado Roberto Podval, que atuou na defesa de Vorcaro até março deste ano, foi o responsável por apresentar ao ministro André Mendonça uma proposta de delação seletiva que, segundo apuração do UOL, teria como objetivo evitar maiores desgastes ao STF ao tentar poupar ministros de acusações feitas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A informação foi publicada pelo jornal O Globo e confirmada pela coluna.
Questionado sobre a proposta, Podval preferiu não responder.
Revelação aconteceu em sessão carregada de tensão
As revelações vieram à tona na última terça-feira, durante o julgamento sobre a manutenção da prisão do pai do ex-banqueiro. Mendonça, relator do caso Master, não se conteve e disparou duas frases que marcaram a sessão: “Perderam o pudor, ministro Gilmar.” “Me chegou uma proposta por um advogado (…) ‘Queremos fazer uma delação seletiva’.”
Mendonça fez questão de esclarecer que a proposta não partiu de José Oliveira Lima, conhecido como Juca, que deixou a defesa de Vorcaro em maio, após divergências com o ministro relator.
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Reunião presencial e resposta ríspida do relator
A sugestão de delação seletiva foi feita por Podval durante uma reunião presencial com Mendonça. Ao ouvir a proposta, o ministro reagiu com rispidez, afirmando que Vorcaro teria que se comprometer a responder a tudo que lhe fosse perguntado.
“Não faço questão de delação, agora, delação seletiva comigo, não”, declarou Mendonça durante um embate direto com o decano da corte, ministro Gilmar Mendes.
Epicentro da crise: Toffoli e Moraes
No início do escândalo do banco Master, os holofotes se voltaram para Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Toffoli se declarou impedido e deixou a relatoria do caso. Moraes, por sua vez, sustenta que não há irregularidades no contrato milionário de Vorcaro com o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Julgamento simultâneo nas duas turmas do STF
A sessão acontecia na Segunda Turma do STF, composta por Gilmar Mendes (presidente), André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli e Luiz Fux. Enquanto isso, na Primeira Turma — formada por Flávio Dino (presidente), Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia —, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) era condenado, por unanimidade, a quatro anos de reclusão por coação no curso do processo da trama golpista.
Mendonça denuncia tentativa de obstrução e ameaça de nulidade
Gilmar Mendes alertou para práticas que remetiam à Lava Jato. Em resposta, Mendonça acusou o que chamou de ação do “sistema” para buscar nulidade nas investigações.
“Todos nós devemos zelar para evitar ensejarmos não só a nulidade, mas a hipótese de suspeitas sobre a condução (…) E mais que isso, ministro Gilmar: tentativas de obstaculizar as investigações. Isso é grave.”
Sem citar nomes, o relator afirmou que recebia informações de que colegas estariam agindo para paralisar o trabalho no caso Master.
Mendonça relembrou frase de Gilmar e reafirmou coragem
Logo no início da sessão da 2ª Turma, Mendonça recordou que Gilmar Mendes, na época em que ele almejava chegar à corte, havia lhe dito que ser ministro do Supremo exigia coragem.
“E me lembro do que respondi na ocasião. ‘Não tenho medo da morte, quanto mais de ser ministro de um tribunal. Não tenho medo de combater o crime, aplicando a lei'”, afirmou Mendonça, olhando nos olhos do decano.
Horas antes da sessão, o relator havia levantado o sigilo de parte das investigações.
Críticas nos bastidores e mudança de estratégia da defesa
Nos bastidores do Supremo, a postura de Mendonça gerou críticas. A principal objeção é a de que ele, como juiz, não deveria ter qualquer papel na negociação de uma delação. Além disso, argumenta-se que o ministro teria adiantado “juízos peremptórios sobre o mérito, para muito além do habeas corpus que estava sendo julgado”.
Atualmente, a defesa de Vorcaro avalia que não há clima para discutir uma nova proposta de delação premiada com a PGR (Procuradoria-Geral da República). A estratégia deve mudar: a equipe pretende manter uma postura colaborativa, mas buscar brechas e atenuantes na conduta do ex-banqueiro.
Com informações de UOL
