Presidente da indústria alemã diz que país vive crise estrutural e risco de desindustrialização irreversível
A maior economia da União Europeia enfrenta o momento mais delicado desde o pós-guerra. O alerta foi feito por Peter Leibinger, presidente da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung, na qual descreveu um cenário de profunda deterioração econômica e institucional no país.
Segundo Leibinger, a Alemanha não atravessa apenas uma fase de desaceleração conjuntural, mas uma crise estrutural sem precedentes desde a fundação da República Federal da Alemanha, em 1949. Para ele, o risco de uma desindustrialização irreversível deixou de ser hipótese distante e passou a ser uma ameaça concreta.
“O país corre o risco de uma desindustrialização irreversível. A China copiou nosso modelo”, afirmou o dirigente, acrescentando que o ambiente interno é marcado por pessimismo generalizado. De acordo com Leibinger, o clima entre empresários é “extremamente negativo, em alguns casos até agressivo”, reflexo de uma frustração profunda com os rumos da economia.
Crise estrutural vai além de uma recessão comum
Na avaliação do líder industrial, a gravidade da situação surpreendeu até leitores acostumados ao seu estilo moderado. Conhecido por um discurso técnico e equilibrado, Leibinger adotou um tom considerado alarmante, o que reforçou a percepção de que a crise atingiu um patamar crítico.
Ele destacou que os problemas não se limitam a um ciclo econômico desfavorável. Trata-se, segundo ele, de uma ruptura no próprio modelo econômico alemão, pressionado simultaneamente por altos custos de energia, excesso de burocracia, perda de competitividade e concorrência global cada vez mais agressiva.
“Sinais de alerta devem soar”, advertiu, ao afirmar que o modelo que sustentou décadas de prosperidade está sob ataque em múltiplas frentes.
Modelo econômico da Alemanha se esgotou
Os indicadores econômicos reforçam o diagnóstico apresentado por Leibinger. Mesmo após o governo do chanceler Friedrich Merz flexibilizar, na primavera, o rígido freio constitucional da dívida pública — movimento descrito como uma “revolução” fiscal — os resultados práticos ainda não apareceram na economia real.
O plano prevê aumento expressivo dos gastos militares e a destinação de 500 bilhões de euros (cerca de R$ 4,5 trilhões) para investimentos em infraestrutura e digitalização ao longo de 10 a 12 anos. Ainda assim, a atividade econômica segue praticamente parada.
As projeções do Conselho de Especialistas Econômicos indicam que a Alemanha deve encerrar o ano com crescimento do PIB entre 0% e 0,1%. O desemprego também avança: são quase três milhões de desempregados, com a taxa atingindo 6,3%.
O setor manufatureiro, pilar histórico da economia alemã, já perdeu 500 mil postos de trabalho desde os níveis anteriores à pandemia de Covid-19.
Indústria automotiva simboliza o declínio
A situação da indústria automobilística ilustra o enfraquecimento estrutural. Tradicional vitrine da engenharia alemã, o setor enfrenta concorrência crescente de veículos elétricos chineses, mais baratos, além do impacto dos elevados custos de energia no país.
Atrasos no desenvolvimento de tecnologias digitais e de baterias comprometeram a competitividade de gigantes como a Volkswagen, que passou a discutir reestruturações e fechamento de fábricas — medidas que, até poucos anos atrás, eram consideradas impensáveis.
Enquanto isso, recursos destinados a obras de infraestrutura, como pontes e ferrovias, demoram a chegar à economia devido à lentidão burocrática, um problema crônico do Estado alemão.
Benefícios concentrados e custos elevados persistem
As reformas promovidas pelo novo governo favoreceram principalmente o setor de defesa, impulsionando empresas como Rheinmetall e Hensoldt, além da construção civil. No entanto, não houve redução imediata dos custos operacionais para companhias privadas intensivas em energia.
Os impostos corporativos permanecem entre os mais altos da OCDE, e o preço da eletricidade segue sendo cerca do dobro do praticado nos Estados Unidos e na China, fator que compromete a competitividade industrial.
Na entrevista, Leibinger observou que, apesar dos volumosos recursos anunciados pelo governo, o sentimento empresarial é de hostilidade crescente, já que os balanços atuais não mostram alívio concreto, apenas promessas de projetos futuros.
Geopolítica complica ainda mais o cenário
O contexto internacional adiciona novas camadas de risco à crise econômica. A Alemanha, segundo Leibinger, é o grande país ocidental que mais teme o expansionismo russo. A percepção dominante é de que não se trata de saber se, mas quando Moscou poderá ameaçar diretamente a Europa.
Nesse sentido, o esforço de rearmamento liderado pelo governo Merz responde a um temor real da sociedade alemã, ainda marcado por traumas históricos e pela proximidade do conflito no Leste Europeu.
China copiou o “modelo alemão”, diz indústria
Outro ponto central da entrevista foi a crítica direta à China. Para Leibinger, a Alemanha cometeu um erro estratégico ao acreditar que a divisão internacional do trabalho seria permanente: enquanto os alemães forneciam máquinas e tecnologia, os chineses garantiriam mão de obra barata e consumo em massa.
Segundo ele, Pequim fez exatamente o oposto do que Berlim esperava. Ao longo de duas décadas, a China estudou detalhadamente o modelo alemão, baseado em superávits comerciais, manufatura avançada e os chamados “campeões ocultos” — empresas médias altamente especializadas e líderes globais em nichos específicos.
Por meio de joint ventures forçadas, a China absorveu tecnologia, processos produtivos e know-how alemães. Hoje, produz seu próprio maquinário, concorre globalmente e disputa mercados de alto valor agregado, como carros elétricos, máquinas industriais e produtos químicos.
Terapia de choque ou declínio prolongado
Com a Alemanha frequentemente descrita como o “homem doente da Europa”, Leibinger concluiu que não há mais espaço para reformas graduais. Na visão do presidente da BDI, apenas uma terapia de choque poderá evitar o colapso do sistema industrial alemão.
Para ele, a sobrevivência do país como potência econômica depende de decisões rápidas e profundas, capazes de enfrentar simultaneamente custos elevados, excesso regulatório, concorrência global e transformações geopolíticas.