Agora pare e releia.
O governo que prometeu colocar o pobre no orçamento quer usar a Justiça Eleitoral para impedir que o pobre mostre quanto custa comer.
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Entrar no grupo O roteiro da acusação
Segundo o levantamento contratado pelo PT, os vídeos teriam semelhanças entre si: mesmo tipo de gravação, objetos parecidos, sequência de falas semelhante. Um mesmo modelo de roteiro teria aparecido em sete publicações de seis contas diferentes. Uma foto de contrafilé, com o mesmo código de barras, circulou em 33 perfis.
A campanha de Lula também alega que parte dos criadores de conteúdo recebeu benefícios após publicar os vídeos — doações de empresários, ganho de seguidores, melhorias nas residências. Uma influenciadora do Rio Grande do Norte teria ganhado uma TV, ajuda para reformar o banheiro e a cozinha.
Pode até ser que exista algum grau de coordenação. É legítimo investigar. Mas a pergunta que a campanha de Lula não responde é a mais simples de todas:
Os preços mostrados nos vídeos são falsos?
Não são. E esse é o ponto.
Quando a realidade vira propaganda adversária
Se 33 perfis publicaram a mesma foto de contrafilé com o mesmo código de barras, há duas explicações possíveis. Ou houve coordenação — ou o preço era tão absurdo que viralizou sozinho. Em ambos os casos, o preço continua lá, impresso na etiqueta, indiferente à narrativa que o governo tenta construir.
A campanha petista não contesta os valores. Não diz que os alimentos estão baratos. Não apresenta dados que desmintam os vídeos. Apenas aponta que os vídeos se parecem — como se a semelhança do formato apagasse a verdade do conteúdo.
É a velha tática: quando não se pode matar a mensagem, mata-se o mensageiro.
O reflexo autoritário
Recorrer ao TSE para silenciar críticas sobre o custo de vida é mais do que uma estratégia eleitoral equivocada. É um reflexo revelador.
Em vez de apresentar resultados, a campanha de Lula prefere judicializar a insatisfação. Em vez de explicar por que a comida está cara, quer investigar quem reclama. Em vez de resolver, quer esconder.
E é aí que a história complica.
Porque quando o governo trata a exposição de preços como ameaça eleitoral, está admitindo, sem dizer, que os preços são um problema. Se não fossem, os vídeos seriam irrelevantes. Ninguém aciona a Justiça contra conteúdo que não incomoda.
A comparação inevitável
Agora imagine o cenário invertido. Imagine que, durante o governo Bolsonaro, influenciadores tivessem filmado prateleiras de supermercado mostrando preços altos — e a campanha bolsonarista tivesse acionado o TSE para tirá-los do ar.
O que diria o PT? O que diria a imprensa? O que diriam os defensores da democracia?
A resposta é óbvia. Seria autoritarismo. Seria censura. Seria tentativa de silenciar o povo.
Mas quando Lula faz, é combate à desinformação.
O preço que ninguém consegue esconder
A auditoria do PT identificou nove publicações em que os criadores mencionaram algum tipo de benefício recebido. Nove. Em um universo de milhões de brasileiros que vão ao mercado todo dia e voltam para casa indignados com a conta.
A campanha pode processar vinte influenciadores. Pode processar duzentos. Pode processar dois mil. Mas não vai conseguir processar a realidade que aparece no caixa do supermercado toda vez que uma família brasileira tenta encher o carrinho.
O problema de Lula não são os vídeos. O problema são os preços que os vídeos mostram.
E contra isso, não existe liminar que resolva.