O ex-guerrilheiro, que governa a Nicarágua ininterruptamente desde 2007 e que historicamente contou com o apoio de líderes de esquerda da América Latina — incluindo o presidente brasileiro Lula —, anunciou ainda que a Assembleia Nacional, totalmente controlada pelo governo sandinista, aprovará novas leis repressivas contra opositores. “Leis que ergam um muro, um bloqueio contra os golpistas e os traidores da pátria”, disse Ortega, acrescentando: “por mais dinheiro que os ianques (EUA) lhes deem, não conseguirão”.
Reformas constitucionais já haviam adiado eleições para 2027
Na prática, a Nicarágua já vinha caminhando para a supressão da democracia. Eleições gerais estavam previstas para novembro deste ano, mas profundas reformas constitucionais — duramente criticadas pela ONU, pela OEA e pela oposição — entraram em vigor no início de 2025 e ampliaram o mandato presidencial para seis anos. Assim, as próximas eleições ficariam, em tese, apenas para novembro de 2027. Agora, porém, Ortega indica que nem essa data será respeitada.
Receba no WhatsApp as principais noticias do diaEntre no grupo do ContraFatos e acompanhe os destaques em primeira mao.
Entrar no grupo Essas mesmas reformas criaram o cargo de “copresidente” para Rosario Murillo, vice-presidente e esposa de Ortega. Em janeiro, ao completar um ano da mudança, o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou que o cargo foi “inventado” sem mandato nem legitimidade, “porque sabe que não pode vencer” em uma eleição livre.
Ataques aos Estados Unidos e defesa de Maduro e Cuba
No mesmo discurso, Ortega direcionou duras críticas a Washington. O ditador sandinista condenou a captura, em janeiro, do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusando os Estados Unidos de serem “feras diabólicas” que querem “dominar os povos para roubar suas riquezas”.
“O que fizeram (os EUA) com todo o seu poderio? Foram e invadiram a Casa Presidencial, onde estava Nicolás com sua esposa, mataram seus guarda-costas, em sua maioria cubanos, e o levaram para uma prisão nos Estados Unidos. Isso é uma monstruosidade”, criticou Ortega.
O líder nicaraguense também saiu em defesa de Cuba, afirmando que políticos “a serviço das potências são os mesmos que pedem às potências que façam o mesmo com Cuba”. “Há cubanos no exílio que pedem ao governo dos Estados Unidos que invada militarmente Cuba e leve preso o comandante da revolução, Raúl Castro”, declarou.
Isolamento internacional crescente
Manágua manteve durante anos uma aliança estreita com Caracas e Havana, mas ficou ainda mais isolada após a intervenção norte-americana na Venezuela e a campanha econômica e política de Washington contra Cuba. O regime Ortega-Murillo, apesar de manter um perfil relativamente discreto durante anos nas relações com a Casa Branca, passou a intensificar os ataques verbais.
Em abril, Ortega chamou Donald Trump de “desequilibrado mental” por “sequestrar” Maduro e por ameaçar “desmantelar” Cuba por meio de uma operação militar. Desde a captura do líder venezuelano, a Nicarágua libertou presos políticos — um gesto interpretado como tentativa de amenizar a pressão internacional.
No entanto, os Estados Unidos continuam endurecendo a postura contra o regime. O governo americano vem anunciando periodicamente novas sanções contra funcionários próximos ao casal presidencial e até contra familiares diretos de Ortega e Murillo.
O episódio reforça a trajetória autoritária de Ortega, um líder de esquerda que, ao longo de décadas, transformou um projeto revolucionário em uma ditadura familiar, eliminando qualquer resquício de pluralismo político na Nicarágua.