“O 8 de janeiro foi uma forma de colocar para a nação a finalização de uma narrativa que levaria a tirar Bolsonaro das eleições de 2026”, afirmou. “Não posso aceitar que o 8 de janeiro tenha sido um golpe final, com senhoras de 73 anos, com vendedor de picolé e de bandeira.”
“Pensamento não é crime”, diz ex-STJ
Durante a entrevista, a ex-ministra lembrou que, após a derrota nas eleições de 2022, Bolsonaro reconheceu o resultado, abriu processo de transição para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e, depois, viajou para os Estados Unidos.
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Entrar no grupo “Ele fez tudo isso, foi para os Estados Unidos e tentou dar golpe? Sem soldado? Não é crível, não há dinâmica. Podem ter pensado em golpe? Podem. Mas pensamento não é crime”, argumentou.
Eliana ressaltou que, apesar de não se considerar “bolsonarista”, enxerga excessos na condução do caso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
“Digo isso como cidadã brasileira, porque não sou bolsonarista. Mas o que estão fazendo vai além do razoável jurídico.”
Críticas ao Supremo Tribunal Federal
Na mesma entrevista, Eliana Calmon fez duras críticas à atual composição e ao funcionamento do STF, que, segundo ela, se tornou uma “corte política”, distante da função original de zelar apenas pela constitucionalidade das leis.
“Hoje o controle do Judiciário está nas mãos de 11 ministros que vivem numa bolha, com o ego inflado. Não vejo a possibilidade de admitirem que erraram”, afirmou.
Ela defendeu uma reforma estrutural para transformar o Supremo em um tribunal exclusivamente constitucional, argumentando que o modelo atual concentra poder excessivo e influência política.
“A Constituição de 1988 transformou o STF num tribunal recursal, onde se analisam litígios simples. Isso o politizou completamente”, explicou.
“A OAB virou um partido político”, diz jurista
Além das críticas ao Supremo, Eliana também direcionou suas observações à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que, segundo ela, deixou de representar os interesses da advocacia e se alinhou ao poder político.
“Nunca vi os advogados com tanto receio do Judiciário como têm agora do STF. Nem na ditadura militar havia esse medo”, afirmou.
“A OAB virou quase um partido político, ao lado do sistema. Não defende mais os advogados nem as instituições.”
A jurista afirmou ainda que há um clima de intimidação dentro da advocacia e do próprio Poder Judiciário.
“Se nós, magistrados, já não estamos cumprindo nosso papel com independência, imaginem os advogados. Algumas instituições se quebraram por completo.”
Contexto e repercussão
Eliana Calmon, de 79 anos, integrou o STJ entre 1999 e 2014 e ficou conhecida por seu discurso anticorrupção e por denunciar desvios dentro do próprio Judiciário. Desde então, tem se mantido como uma voz crítica ao ativismo judicial e à falta de autonomia das instituições democráticas.
Suas declarações sobre o 8 de janeiro geraram forte repercussão entre juristas e políticos, reacendendo o debate sobre a judicialização da política e o papel do STF no cenário nacional.