Ausente.
A pergunta que ninguém faz é simples: por que um parlamentar da oposição está ocupando um espaço que deveria ser do Itamaraty, do Ministério da Fazenda, do próprio presidente da República?
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Entrar no grupo No documento enviado ao USTR, a equipe de Flávio solicitou cinco minutos de fala para apresentar argumentos contra o tarifaço — uma medida que pode atingir até 21% do volume total das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Cinco minutos. É o tempo que o senador terá para tentar evitar um estrago bilionário que a diplomacia oficial sequer parece estar tentando conter.
Mas há um detalhe.
A linha de argumentação do senador não é protecionista nem panfletária. Ele defende a suspensão imediata das tarifas e propõe algo que governos sérios fazem por reflexo: a abertura de um canal bilateral de negociação com agenda técnica, cronograma claro, metas definidas e mecanismos de acompanhamento mútuo. Diplomacia básica. O arroz com feijão das relações comerciais que o governo Lula aparentemente esqueceu como se faz.
E é aí que a história complica.
O relatório americano que fundamenta a proposta de sanções não nasceu do nada. Ele aponta retrocessos concretos no combate à corrupção — a anulação de provas e sentenças da Operação Lava Jato — e a falta de transparência nos processos de renegociação dos acordos de leniência de grandes empresas brasileiras. Em outras palavras: os americanos estão cobrando a conta de decisões que o governo e o Judiciário brasileiro tomaram com entusiasmo e que a imprensa aplaudiu como “correções históricas”.
Agora compare.
O mesmo establishment que celebrou o desmonte da Lava Jato como uma vitória do “Estado de Direito” agora assiste, em silêncio constrangido, enquanto esse desmonte é usado como justificativa para tarifas que podem estrangular o setor produtivo brasileiro. A ironia não poderia ser mais cruel — nem mais previsível.
Antes de formalizar o pedido de participação na audiência, a comitiva ligada à oposição já havia mantido contatos diretos com lideranças republicanas, incluindo o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio. Diplomacia paralela? Talvez. Mas quando o canal oficial está entupido de ideologia e inércia, alguém precisa abrir outro.
O governo Lula, que adora se apresentar como campeão do multilateralismo, está deixando o Brasil ser pautado por uma audiência em Washington sem sequer sentar à mesa. É o tipo de ausência que não se explica por estratégia — se explica por incompetência diplomática ou, pior, por cálculo político.
Porque convenhamos: se as tarifas forem impostas e o Pix sofrer restrições no mercado externo, quem paga a conta não é o Planalto. É o exportador do agronegócio, o empresário da indústria, o trabalhador que depende de uma economia que precisa de mercados abertos para funcionar. Mas o governo parece mais preocupado em manter sua narrativa ideológica intacta do que em defender os interesses concretos do país.
O vazio diplomático tem consequências. E quando a oposição precisa cruzar o hemisfério para tentar evitar o estrago que o governo não se deu ao trabalho de prevenir, o que temos não é protagonismo parlamentar — é atestado de falência da política externa brasileira.