Chamas já consumiram mais de 22 mil hectares na região de Bordeaux, e a crise também se estende à Espanha com emergência nacional inédita
Um cenário de devastação toma conta do sudoeste da França. O maior incêndio registrado no país nos últimos 50 anos já obrigou a retirada de 141 mil pessoas na região de Bordeaux, esgotou as vagas em abrigos improvisados e mobilizou bombeiros de todo o território francês, além das Forças Armadas. A emergência também atravessou a fronteira: a Espanha decretou, pela primeira vez em sua história, emergência nacional por causa de incêndios florestais.
Destruição sem precedentes na Gironda
O epicentro da catástrofe está no departamento da Gironda, onde fica Bordeaux — uma das regiões vinícolas mais célebres do planeta. As chamas, que começaram na quarta-feira (22), já varreram mais de 22 mil hectares, área equivalente a cerca de 31 mil campos de futebol oficiais ou ao dobro da superfície da cidade de Paris. Pelo menos cem edificações foram atingidas pelo fogo.
O incêndio supera os grandes eventos de 2022 na mesma região e é classificado como o mais devastador em meio século. Desde o início do ano, a França já perdeu quase 98 mil hectares para incêndios florestais — um recorde histórico, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
Mobilização militar e resposta do governo
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu declarou que o país enfrenta uma situação sem precedentes e determinou o envio de um avião militar de transporte para apoiar as operações de combate. Na sexta-feira (24), o presidente Emmanuel Macron — que já demonstrou tanta preocupação com a floresta amazônica brasileira, mas agora vê seu próprio território em chamas — ordenou que as Forças Armadas reforcem ao máximo as operações da Defesa Civil. O Corpo de Bombeiros de Paris anunciou o envio de equipes adicionais, em uma mobilização muito superior à observada durante os incêndios de quatro anos atrás.
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Curioso como Macron, que em 2019 questionava a soberania brasileira sobre a Amazônia, tratando-a como patrimônio da humanidade que o Brasil não saberia cuidar, agora se vê diante de um desastre ambiental em solo francês que bate todos os recordes do país. A ironia parece escapar do Palácio do Eliseu.
‘É o apocalipse’: o desespero nos abrigos
O Parque de Exposições de Bordeaux foi transformado às pressas em centro de acolhimento. Nos enormes galpões adaptados, famílias inteiras dividem espaço com idosos, crianças pequenas e moradores que chegaram apenas com alguns pertences pessoais. “É o apocalipse”, resumiu ao site Franceinfo um dos moradores recebidos no local.
Milhares de pessoas passaram a noite no centro após novas ordens de retirada preventiva emitidas pelas autoridades. O fluxo de chegada foi ininterrupto ao longo da noite e da manhã, à medida que novas áreas eram incluídas nas zonas de evacuação.
As camas improvisadas se esgotaram rapidamente. Muitos passaram a noite em colchões espalhados pelo chão. Outros tentaram descansar sentados em cadeiras ou apoiados sobre mesas. O calor dentro dos galpões aumentava o desconforto, e filas se formavam diante dos pontos de distribuição de alimentos, enquanto voluntários trabalhavam sem interrupção para receber novos grupos.
Relatos de exaustão e incerteza
Odile, de 90 anos, deixou sua residência acompanhada da filha. No caminho, elas recolheram um homem de 99 anos, que vive sozinho e tem deficiência visual. “Estamos completamente exaustas”, relatou a aposentada, explicando que o grupo não conseguiu descansar durante a noite porque já não havia mais camas disponíveis quando chegaram ao centro de acolhimento.
A principal fonte de angústia, porém, é a incerteza. Muitos moradores ainda não sabem se suas casas foram atingidas nem quando poderão voltar às áreas evacuadas. Na sexta-feira (24), uma chuva de resíduos das queimadas cobriu partes de Bordeaux, reforçando a sensação de proximidade do desastre. Em vários pontos da região metropolitana, a fumaça e a queda de cinzas já se tornaram parte da rotina.
Ameaça à economia vinícola
A Gironda abriga alguns dos vinhedos mais prestigiados do planeta, responsáveis por rótulos que fizeram de Bordeaux uma referência mundial na produção de vinho. Além da ameaça à população e às áreas florestais, o avanço das chamas preocupa uma região cuja economia depende fortemente da viticultura, do turismo e das atividades associadas ao setor.
Espanha decreta emergência nacional inédita
Do outro lado dos Pireneus, a Espanha também enfrenta uma crise sem paralelo. Pela primeira vez, o país decretou emergência nacional por causa do avanço das chamas. Na região de Madri, cerca de 63 mil pessoas foram retiradas de suas casas ou receberam ordem para permanecer confinadas. Aproximadamente 5 mil turistas foram evacuados de um camping em El Escorial, ao noroeste da capital.
O cheiro de queimado já alcançou áreas centrais de Madri, enquanto bombeiros continuam enfrentando incêndios descritos por autoridades locais como extremamente difíceis de controlar.
Segundo a porta-voz do Greenpeace na Espanha, Celia Ojeda, os incêndios atuais pertencem à categoria dos chamados incêndios de “sexta geração”, fenômeno associado à combinação entre calor extremo, seca prolongada e vegetação altamente ressecada. Ela afirmou à RFI que a quantidade de energia produzida por esses incêndios é tão elevada que os próprios especialistas encontram dificuldades para prever seu comportamento e sua velocidade de propagação.
Ojeda destaca ainda que as sucessivas ondas de calor registradas nos últimos anos, associadas ao aumento das temperaturas noturnas e à redução da umidade do solo, criam condições favoráveis para incêndios cada vez mais intensos e difíceis de controlar.
Retiradas preventivas dividem opiniões
Uma parcela dos moradores questiona a necessidade das evacuações realizadas nas últimas horas. Em algumas localidades, o fogo ainda estava distante quando a ordem foi emitida pelas autoridades. Odile admite que teve dificuldade para compreender a decisão — segundo ela, as chamas não pareciam representar ameaça imediata para sua cidade quando recebeu a determinação para sair.
Mesmo assim, a aposentada afirma entender a lógica adotada pelas equipes de emergência. “É melhor excesso de prudência do que prudência insuficiente”, resume. Sua principal crítica recai sobre a organização do acolhimento: a concentração de milhares de pessoas em um único centro acabou produzindo dificuldades adicionais para quem já chegava fragilizado após horas de deslocamento e congestionamentos.
As autoridades defendem a estratégia de antecipar as retiradas para evitar situações de emergência caso os ventos alterem repentinamente a direção das chamas. Especialistas destacam que incêndios de grande intensidade podem mudar de comportamento em questão de minutos, tornando evacuações tardias muito mais arriscadas.
Alerta máximo mantido nos dois países
Os bombeiros seguem mobilizados em várias frentes da Gironda. Com uma nova onda de calor prevista para os próximos dias, tanto França quanto Espanha mantêm o estado máximo de alerta. As equipes de emergência permanecem mobilizadas para tentar conter uma crise que já se tornou uma das mais graves já registradas no sul da Europa.
As autoridades afirmam que o centro de Bordeaux não corre risco imediato, mas novas retiradas preventivas foram ordenadas durante a madrugada. O avanço das chamas em direção à área metropolitana levou milhares de pessoas a deixar suas casas, muitas delas sem saber quando poderão retornar.
Com informações da RFI, AFP e Franceinfo.
