O argumento central de Gilmar é respeitável na teoria: delações premiadas só têm legitimidade constitucional quando resultam de decisões livres, sem constrangimentos indevidos. O ministro traçou paralelos com a Lava Jato, falou em “expedientes heterodoxos”, denunciou vazamentos seletivos de informações sigilosas e chegou a sugerir que a prisão dos Vorcaro serve como instrumento de pressão para forçar um acordo de colaboração.
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Entrar no grupo Mas há um detalhe.
Onde estava essa indignação toda quando Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, ficou preso por quatro meses antes de fechar a delação que embasou a condenação da cúpula do governo anterior por tentativa de golpe de Estado?
Em nenhum lugar.
E o caso de Cid é, por qualquer ângulo que se olhe, mais explícito do que o dos Vorcaro. Alexandre de Moraes, relator do caso, registrou oficialmente — em audiência de 21 de novembro de 2024 — que as consequências de eventuais omissões no acordo alcançariam não apenas o colaborador, mas também seu pai, sua esposa e sua filha maior.
“Eventual rescisão englobará inclusive a continuidade das investigações e responsabilização do pai do investigado, de sua esposa e de sua filha maior”, disse Moraes, sem meias palavras, no registro oficial da audiência.
Pressão sobre a esfera familiar? Afetiva? Pessoal? As palavras que Gilmar usou para descrever a Compliance Zero cabem como luva no caso de Mauro Cid. Com uma diferença: no caso de Cid, a pressão não foi sugerida por indícios circunstanciais. Foi declarada publicamente por um ministro do STF.
E Gilmar não disse uma palavra.
Agora compare: o decano do STF se preocupa com a “autodeterminação genuína” de Daniel Vorcaro, cujo acordo de delação foi rejeitado pela segunda vez. Citou até o suicídio de Luís Felipe Machado de Morais Mourão, o “Sicário”, para reforçar o ambiente de vulnerabilidade.
Mas quando o delator era adversário político de seus aliados, quando a família inteira era usada como moeda de barganha às claras, o silêncio do decano era ensurdecedor.
Não é coincidência.
É padrão.
No julgamento de terça-feira, Gilmar votou contra a prisão preventiva de Felipe Vorcaro e pediu a conversão da prisão de Henrique em domiciliar com tornozeleira. Foi derrotado por André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Dias Toffoli se declarou impedido — o ministro é sócio oculto de uma empresa que fez negócios com o Master, embora não tenha se justificado publicamente.
O problema de Gilmar Mendes não é estar errado sobre os riscos de delações sob pressão. Esse debate é legítimo e necessário. O problema é que ele só levanta esse debate quando lhe convém. Quando o alvo da pressão é um ex-militar bolsonarista, os princípios constitucionais podem esperar. Quando é um banqueiro sob investigação, a Constituição grita.
A pergunta que ninguém faz é simples: que tipo de garantismo é esse que só funciona para um lado?
Uma toga deveria pesar igual em todos os ombros. Quando muda de peso conforme o réu, não é mais toga. É fantasia.