Série Bet Files expõe contradição documental entre vetos baseados em alertas policiais e posterior autorização das casas de apostas
Todas as casas de apostas que tiveram licença negada com base em relatórios da Polícia Federal acabaram autorizadas a operar pelo governo Lula. Em alguns casos, o intervalo entre o veto e a liberação foi de poucas semanas — apenas 22 dias no episódio mais emblemático. A revelação é o eixo central da terceira reportagem da série Bet Files, publicada nesta segunda-feira (31) pelo jornalista investigativo David Ágape no site A Investigação.
Os processos analisados só se tornaram públicos depois que a Fazenda tentou impor sigilo de até 100 anos sobre a documentação e recuou diante de pressão jornalística. Ainda assim, os relatórios da PF que fundamentaram os indeferimentos continuam cobertos por tarjas. Já as defesas das empresas e os argumentos que sustentaram as liberações estão acessíveis.
Doutrina de cautela criada e depois abandonada
A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda consultou a Polícia Federal em dezembro de 2024 e, com base nos alertas recebidos, negou licença a diversas operadoras. O governo registrou por escrito que o alerta policial era suficiente para proteger o mercado. Nos recursos administrativos, porém, passou a exigir condenação judicial ou “elementos concretos” — critério oposto ao que havia adotado.
O secretário Regis Dudena chegou a afirmar que um dos indeferimentos “foi acertado” — e, ainda assim, autorizou a empresa a operar.
Entre no grupo do ContraFatos e acompanhe os destaques em primeira mao.
Vaidebet, Sportvip, Esportes da Sorte, 1xBet e Hiper Bet: nenhuma ficou de fora
A apuração identificou que Vaidebet, Sportvip, Esportes da Sorte e 1xBet tiveram a idoneidade reprovada após consultas feitas pela própria Fazenda à PF. Uma quinta empresa, a Hiper Bet, teve o processo travado pelo mesmo tipo de alerta. Todas, sem exceção, acabaram liberadas para atuar no mercado regulado.
Vaidebet: três derrotas e uma reviravolta na última instância
No processo da BPX Bets Sports Group, dona da Vaidebet, a Coordenação-Geral de Monitoramento de Lavagem de Dinheiro sustentou que a análise de idoneidade “não se limita a um mero cumprimento de requisitos formais”. O dever de cautela, escreveu a secretaria, “se impõe ao gestor público em casos de indícios de supostas práticas delituosas”. A licença, segundo a doutrina então adotada, não era pena criminal e podia ser negada sem condenação prévia.
O pedido foi indeferido em 23 de dezembro de 2024. A empresa recorreu e perdeu nas duas primeiras instâncias. Havia ainda a constatação de que a declaração de reputação ilibada trazia informação inverídica, pois o sócio José André da Rocha Neto não havia informado que respondia a inquérito.
A reversão veio na última instância. Dudena reconheceu que “foi acertada a decisão de indeferimento original, que se baseou inclusive em apurações da Polícia Federal”. Logo em seguida, derrubou a decisão que ele próprio classificava como correta. Adotou a hipótese de que o sócio poderia desconhecer o inquérito sob sigilo. Os autos públicos, conforme a reportagem, não registram diligência para verificar se ele de fato sabia ou não.
Sportvip: veto revertido em 38 dias sem nova consulta à PF
Em 13 de dezembro de 2024, um parecer concluiu que a Sportvip não cumpria os requisitos de idoneidade com base em relatório da PF. Apenas 38 dias depois, em 20 de janeiro de 2025, a SPA afirmou que, “com as informações atualmente disponíveis”, não era possível comprovar as supostas práticas e reverteu o veto. Entre os dois documentos públicos não há registro de nova consulta à polícia. O recurso da empresa é o único fato novo indicado.
Hiper Bet: critério invertido
Um relatório da PF recebido em 26 de novembro de 2024 travou o processo da Hiper Bet. Em 20 de janeiro de 2025, a mesma área técnica reformou a decisão porque a empresa apresentou certidões negativas atualizadas e contratos de mútuo. A nova nota passou a exigir “elementos concretos ou condenações judiciais” — justamente o critério que a secretaria havia afirmado ser desnecessário quando barrou outras operadoras.
Esportes da Sorte: veto no último dia do ano, licença em 22 de janeiro
O caso de maior visibilidade envolve a Esportes Gaming Brasil, operadora da Esportes da Sorte. O pedido foi indeferido em 31 de dezembro de 2024, após consultas à Diretoria de Combate ao Crime Organizado da PF e à Interpol. A empresa era patrocinadora de Corinthians, Bahia, Ceará e Grêmio. Com os campeonatos estaduais já em andamento, a Fazenda publicou a licença por força de ordem judicial.
A empresa impetrou mandado de segurança na 4ª Vara Federal Cível do Distrito Federal. A liminar determinou que a Fazenda afastasse a inidoneidade, recebesse os R$ 30 milhões da outorga, publicasse a autorização em até 72 horas e não impedisse a atividade enquanto não houvesse condenação no procedimento investigatório.
A Portaria SPA/MF nº 136, de 22 de janeiro de 2025, liberou Esportes da Sorte e Onabet. Posteriormente, a Lottubet também foi incluída. A ordem judicial adotou exatamente a exigência de condenação que a SPA havia rejeitado nos demais processos.
A secretaria declarou “prejudicado” o rito administrativo, inclusive a anuência do Ministério do Esporte, e manteve suspensa a análise de idoneidade. Um parecer de junho de 2025 ainda descrevia a empresa como operadora “autorizada por decisão liminar”. O filtro policial iniciado pelo governo não chegou ao fim nos documentos divulgados.
Deolane Bezerra e as investigações posteriores
A reportagem registra que Deolane Bezerra promoveu a mesma casa de apostas. Em 2024, a influenciadora foi presa na Operação Integration, da Polícia Civil de Pernambuco, que apurava lavagem de dinheiro e jogos ilegais em torno da bet e de uma banca de jogo do bicho ligada à família do então CEO.
Deolane afirmou que recebia por publicidade e que havia comprado uma Lamborghini do dirigente. Negou lavagem. A empresa também negou as acusações.
Em fevereiro de 2026, a Justiça Federal em Pernambuco anulou medidas da esfera estadual relativas a possíveis crimes federais e autorizou PF e MPF a seguirem apuração própria. Em maio de 2026, Deolane voltou a ser presa, desta vez na Operação Vérnix, em São Paulo, em investigação separada que a aponta em esquema de lavagem ligado ao PCC. A defesa nega organização criminosa e lavagem. A Justiça manteve a prisão.
Deolane se declara lulista e esteve com Lula e Janja na campanha de 2022 e na posse de 2023.
Esses episódios não comprovam, por si, que a licença federal da Esportes da Sorte tenha sido concedida de forma ilícita. Mostram, no recorte da série, o contraste entre o alerta policial usado para vetar a empresa e a rapidez com que ela passou a operar com aval judicial, patrocínio de clubes grandes e exposição pública.
1xBet: provas exigidas que não constam dos autos públicos
A Defy, operadora da 1xBet, foi indeferida em 27 de dezembro de 2024 com base em informações da PF. Ao aceitar o recurso, a SPA condicionou a continuidade à comprovação de que sócios da Navasard Limited não tinham relação com fundadores russos citados nos autos.
Os pareceres seguintes afirmam que as exigências foram atendidas, mas a prova específica não consta da versão pública. A empresa foi autorizada. A reportagem reserva o detalhamento para a próxima parte da série. A 1xBet já era conhecida por histórico internacional conturbado e por ter operado no Brasil enquanto aguardava a outorga federal — ponto também documentado pela imprensa convencional.
Tarjas que impedem o acesso à substância dos fatos
Nos processos da Vaidebet, da Sportvip, da Esportes da Sorte e da Defy, as informações da PF aparecem como páginas cobertas ou meras referências a números de documentos. A Fazenda alega proteção de dados pessoais pela LGPD. A Investigação argumenta que a Lei de Acesso à Informação permite ocultar dados protegidos e liberar o restante. Nas versões publicadas, a tarja impede que o público conheça a substância dos fatos que o próprio governo usou para negar as licenças.

Contradição documental no coração do mercado regulado
A série não conclui que as empresas cometeram os atos investigados pela polícia. Conclui que há uma contradição documental: a SPA formulou uma doutrina de cautela segundo a qual indícios bastavam; depois autorizou todas as empresas que havia barrado com base nela e publicou apenas a metade do processo que explica a mudança.
O contexto é o mercado que o próprio governo Lula regulamentou. A lei das apostas de quota fixa foi sancionada no fim de 2023. A outorga de R$ 30 milhões por operadora virou receita. O mercado regulado entrou em vigor na virada de 2025. Em paralelo, o presidente passou a criticar o setor e a falar em proibição durante a campanha — depois de ter vetado trechos e sancionado o marco que criou o negócio.
