Dois pesos, duas medidas: quando Bolsonaro tentou o mesmo
É impossível não notar a ironia histórica da situação. Quando o ex-presidente Jair Bolsonaro questionou decisões do Judiciário, buscou articular respostas institucionais contra o que considerava excessos do STF e tentou mobilizar apoio político para resistir a ordens judiciais, foi acusado — e posteriormente condenado — por atentar contra as instituições democráticas. Agora, o governo Lula adota postura semelhante: recusa-se a cumprir uma decisão judicial, mobiliza aliados jurídicos para descredibilizar a medida e cogita acionar mecanismos constitucionais para blindar sua posição. A pergunta que fica é: descumprir decisão judicial e buscar meios de pressionar o Judiciário é golpe apenas quando convém politicamente?
Conselho da República entra na pauta como alternativa institucional
Marco Aurélio foi além e defendeu a convocação do Conselho da República, órgão superior de consulta do presidente previsto na Constituição Federal para tratar de questões relevantes à estabilidade das instituições democráticas. Na visão dele, Lula “pode e deve” recorrer a esse colegiado para debater a crise que atinge o Supremo e que, segundo sua avaliação, já repercute no ambiente eleitoral.
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Entrar no grupo “Eleições, em toda e qualquer Democracia, devem ser disputadas no voto. Não podemos permitir que funções públicas sejam novamente capturadas por interesses políticos e eleitorais”, afirmou ele à Folha de S. Paulo.
Advogado classifica crise como inédita na história do país
O coordenador do Prerrogativas não poupou palavras ao dimensionar o momento político. Para ele, o Brasil vive uma crise institucional sem precedentes. “O Brasil está mergulhando em um crise institucional sem precedentes na história do país”, declarou. “Poderes e órgãos da República avocando prerrogativas constitucionais que não lhe foram atribuídas.”
Ele fundamentou sua posição no artigo 89 da Constituição Federal, regulamentado pela lei 8041, que permite ao presidente convocar o Conselho da República como órgão de consulta e aconselhamento. “Com base no artigo 89 da Constituição Federal, regulamentado pela lei 8041, o Presidente Lula pode e deve convocar o Conselho da República, que é um órgão de consulta e aconselhamento da Presidência da República”, disse.
A resposta considerada adequada à gravidade da situação
Na avaliação de Marco Aurélio, a resposta articulada pelo governo — recurso judicial combinado com convocação do Conselho da República — seria proporcional “dada a gravidade da medida”. A disputa por competências entre diferentes órgãos do Estado foi apontada por ele como o cerne da crise. O advogado criticou o que enxerga como uma invasão de prerrogativas constitucionais do Executivo pelo Judiciário.
O cenário levanta questionamentos sérios sobre os limites da reação institucional. Se resistir a decisões judiciais por meio de manobras políticas e jurídicas configura ataque à democracia — como foi entendido no caso de Bolsonaro —, o mesmo critério deveria ser aplicado agora. A coerência institucional exige que as regras valham para todos, independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto.