Uma revisão periódica — com um ingrediente inusitado
A mudança está sendo desenvolvida dentro da revisão periódica do Sistema de Contas Nacionais (SCN), processo que o IBGE realiza aproximadamente a cada 10 anos. O instituto começou a discutir como estimar esse mercado em 2019 e chegou a realizar uma primeira estimativa-teste em 2021. Desde então, estudos e testes metodológicos continuam em andamento.
Antes que alguém se assuste mais do que já deveria: a mudança não significa que o IBGE passará a considerar o tráfico de drogas uma atividade legal, nem que passará a medir crimes em geral. O objetivo, segundo o instituto, é estimar uma atividade econômica que efetivamente movimenta dinheiro e, dessa forma, evitar que parte da produção, da renda e dos gastos realizados no país fique fora das estatísticas econômicas.
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Entrar no grupo Em outras palavras: o problema não é o tráfico — é ele não estar na contabilidade.
Quando dinheiro ilegal bagunça a poupança das famílias
O raciocínio do IBGE segue as regras internacionais. Segundo manuais como o System of National Accounts (SNA), publicado pela ONU, e o “Handbook on the compilation of statistics on illegal economic activities in national accounts and balance of payments”, deixar essas operações completamente de fora pode produzir distorções em outras partes das estatísticas.
O exemplo preferido dos defensores da medida é o cálculo da poupança das famílias. Se uma família gasta dinheiro na compra de um produto ilegal e esse gasto não é registrado, as contas podem dar a impressão de que aquele dinheiro permaneceu com a família. Na prática, ele foi gasto. O resultado é uma possível superestimativa da poupança e uma inconsistência entre as diferentes contas econômicas.
Ou seja: se você comprou drogas, o IBGE quer saber — não para te denunciar, mas para corrigir a estatística da sua poupança. Faz todo sentido, claro.
O Brasil não está sozinho nesse show
Para quem acha que essa ideia só poderia sair daqui, convém informar: o Reino Unido já incluiu estimativas sobre drogas ilícitas em suas Contas Nacionais desde 2014. França, Alemanha, Suécia, Holanda, Itália, Espanha e Hungria estão entre os países que também adotam a metodologia europeia.
Então, ao menos nesse quesito, o Brasil está seguindo o exemplo de economias desenvolvidas. O que não deixa de ser irônico: quando se trata de saúde, educação e saneamento, a referência europeia demora décadas para chegar. Para contabilizar o tráfico, a adesão é quase entusiasmada.
Como se calcula o mercado de drogas?
O cálculo não parte simplesmente da quantidade de drogas apreendida pela polícia — até porque, se dependesse só disso, os números seriam ainda mais imprecisos. A metodologia internacional recomenda começar principalmente pelo lado da demanda, ou seja, tentar estimar quanto é consumido.
A lógica é direta: produtores e traficantes têm todo o incentivo do mundo para esconder suas atividades. Já as informações sobre consumo podem ser obtidas por meio de pesquisas e de outras estatísticas disponíveis.
De forma simplificada, a estimativa segue esta fórmula:
- Número de usuários × consumo médio por usuário × preço de venda = estimativa do gasto dos consumidores.
A partir daí, o cálculo precisa estimar como esse consumo é abastecido: quanto vem da produção nacional e quanto corresponde a drogas que entram no território brasileiro por meio de importações ilegais. Também é necessário estimar os custos envolvidos na atividade, o que permite chegar ao chamado Valor Adicionado Bruto (VAB) — que mede quanto uma atividade efetivamente acrescenta à economia depois de descontados os bens e serviços utilizados na produção.
Drogas sim, mas e a prostituição e o contrabando?
Os materiais internacionais nos quais o IBGE se baseia tratam, na verdade, de três tipos de atividades ilícitas: drogas, prostituição e contrabando. O instituto, no entanto, informou em nota que incluirá a comercialização de drogas ilícitas no cálculo do PIB. Questionado sobre se também levará em consideração as outras duas atividades, o IBGE não explicou.
Um silêncio eloquente. Aparentemente, contabilizar o tráfico já é ousadia suficiente para uma única década.
O que o PIB realmente mede — e o que agora vai medir
O PIB mede o valor dos bens e serviços produzidos em uma economia em determinado período. Nas Contas Nacionais, o critério não é simplesmente saber se uma atividade é permitida ou proibida pela legislação. As regras internacionais preveem que, quando há uma transação econômica voluntária entre comprador e vendedor, ela pode entrar nas contas mesmo que o bem ou serviço comercializado seja ilegal.
É o caso da compra e venda de drogas: embora a produção e o comércio sejam proibidos, existe uma transação de mercado entre quem vende e quem compra. E para a estatística, é isso que importa.
Resta saber se, em 2028, quando o novo PIB for divulgado com essa fatia adicional, alguém comemorará o “crescimento econômico” com a mesma empolgação de sempre — sabendo que parte dele veio de um mercado que devasta comunidades, financia a violência e lota presídios.
Mas, afinal, a planilha precisa fechar. E nisso, pelo menos, o IBGE é impecável.