Governo muda critério de medição e considera que capacidade de atendimento já absorve demanda mensal, embora milhares de segurados ainda aguardem decisão
Com uma nova forma de calcular o problema, o governo Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira (3) que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) conseguiu zerar a fila de atendimento. A mudança, no entanto, não significa que todos os segurados já tenham obtido uma resposta. Ao menos 235 mil pedidos permanecem há mais de 45 dias à espera de uma decisão do instituto.
Nova métrica substitui o critério anterior
Até agora, o estoque de processos pendentes além de 45 dias era a principal referência para mensurar atrasos. O governo alterou a lógica: passou a comparar o total de requerimentos em análise com o volume de novas solicitações recebidas mensalmente.
Em agosto, o INSS recebeu 1,394 milhão de novos pedidos. No encerramento do mês, o estoque em análise somava 1,252 milhão de processos. Como esse número é inferior à entrada mensal, a administração entende que a Previdência já possui capacidade suficiente para absorver a demanda corrente.
A presidente do INSS, Ana Cristina Silveira, afirmou que a autarquia pode, portanto, dizer que não existe mais fila no atendimento inicial.
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O que os números realmente mostram
Dos 1,252 milhão de processos ainda em análise, 640 mil são solicitações recentes. Outros 378 mil dependem de alguma providência do próprio segurado, como envio de documentos. Os restantes 235 mil ultrapassaram o prazo de 45 dias sem qualquer retorno do instituto.
A definição, porém, não significa que todos os segurados que aguardam uma resposta já tenham recebido uma decisão. Um pedido de aposentadoria, pensão, benefício por incapacidade ou outro benefício previdenciário não entra automaticamente na categoria de atraso assim que é protocolado. O governo considera demora excessiva apenas quando a análise ultrapassa os 45 dias de referência.
O número de requerimentos também não corresponde necessariamente ao número de pessoas, pois um mesmo segurado pode apresentar mais de um pedido ao instituto.
Redução expressiva ao longo do ano
O estoque de processos pendentes despencou ao longo de 2026. Em janeiro, o INSS acumulava 3,073 milhões de requerimentos. Esse volume caiu para 1,282 milhão em agosto — uma queda de 59%.
Os pedidos que aguardavam mais de 45 dias recuaram ainda mais: de 1,882 milhão em janeiro para 261 mil em agosto, redução de 86%. A espera média caiu para aproximadamente 34 dias, segundo o governo.
A velocidade de processamento também cresceu. Em julho, o instituto afirmou ter respondido a cerca de 1,6 milhão de solicitações, superando os 1,4 milhão de novos pedidos registrados no mesmo mês.
Esse desempenho contrasta com o cenário do início do ano, quando o acúmulo de processos atingiu um dos maiores patamares já registrados. A pressão forçou o governo a estabelecer a redução do estoque como prioridade e fixar setembro como prazo para cumprir a promessa de eliminar a fila.
Dimensão política do anúncio
O anúncio chegou a pouco mais de um mês do início oficial do calendário eleitoral de 2026. Durante meses, a demora na concessão de benefícios se transformou em problema político para o governo.
Já em junho, a administração trabalhava com a meta de eliminar até setembro os requerimentos que haviam ultrapassado 45 dias sem decisão. Naquele momento, cerca de 765 mil pedidos se encontravam nessa situação. A expectativa era reduzir o estoque antes das eleições e evitar que a lentidão no atendimento fosse explorada pela oposição durante a campanha.
O próprio Lula havia antecipado, na semana anterior, que anunciaria o fim da fila nesta quinta-feira. O tema ganhou relevância dentro do governo após o estoque bater 3,1 milhões de pedidos no começo do ano.
No evento, o ministro da Previdência, Wolney Queiroz, afirmou que a missão dada pelo presidente era recuperar a credibilidade do INSS e evitar que segurados permanecessem sem resposta.
Mais concessões e uso de automação
Acompanhando a redução da fila, o ritmo de concessão de benefícios aumentou. Entre janeiro e julho, o INSS concedeu em média 730 mil benefícios por mês, contra 641 mil no mesmo período de 2025 e 438 mil em 2022.
O instituto também ampliou o uso de mecanismos automáticos para acelerar a análise dos requerimentos. A estratégia, contudo, enfrenta limitações. Em auditoria realizada neste ano, o Tribunal de Contas da União apontou que o sistema de concessão automática desenvolvido pela Dataprev não havia produzido integralmente os resultados esperados. O tribunal identificou ainda dificuldades para ampliar a participação dos processos automatizados e problemas relacionados à possibilidade de o segurado corrigir informações que poderiam alterar o valor do benefício.
Outro gargalo persiste: mesmo depois de uma decisão favorável ao segurado em recurso, a implantação do benefício pode levar meses. Em agosto, o Ministério da Previdência informou que estudava automatizar essa etapa, diante de um estoque de mais de 300 mil processos aguardando execução.
O desafio de manter o ritmo
Com a fila considerada zerada, o desafio passa a ser impedir que o estoque volte a crescer. O INSS recebe mais de 1 milhão de novos requerimentos todos os meses. A manutenção dos resultados depende de uma capacidade de processamento permanentemente superior à entrada de novos pedidos.
A estratégia adotada pelo governo permite afirmar que o sistema processa os requerimentos em ritmo compatível com a demanda mensal. Isso é diferente, porém, de dizer que nenhum segurado aguarda uma decisão ou que todos os pedidos dentro do sistema já foram analisados.
Dos processos atualmente pendentes, 235 mil já ultrapassaram os 45 dias considerados como referência para atraso. O governo afirma que esses casos envolvem, em parte, situações mais complexas e que foram criados grupos específicos para tratá-los. A presidente do INSS sustenta que esse tipo de resíduo continuará existindo em uma estrutura do tamanho da autarquia.
A diferença entre as duas métricas — a fila de pedidos fora do prazo e o estoque total em análise — deve ser um dos principais pontos de atenção nos próximos meses. O desafio do instituto não termina com a redução do passivo: é manter a capacidade de resposta acima do volume de novos requerimentos.
