“Até quando a gente vai ver gente bebendo detergente contaminado? É muita ignorância”, afirmou.
A ironia, claro, é que a própria indignação da primeira-dama conferiu aos vídeos — muitos deles claramente provocativos — uma credibilidade que talvez nem seus autores esperassem alcançar.
Receba no WhatsApp as principais noticias do diaEntre no grupo do ContraFatos e acompanhe os destaques em primeira mao.
Entrar no grupo O que motivou a onda de vídeos
A mobilização bolsonarista teve início após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinar a suspensão da fabricação e comercialização de parte dos produtos da Química Amparo, empresa dona da marca Ypê. A decisão atingiu lotes de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes.
De acordo com a Anvisa, inspeções realizadas em parceria com órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária identificaram falhas nos controles de qualidade e risco de contaminação microbiológica nos produtos com numeração final 1. Em nota, a agência afirmou que as irregularidades encontradas “podem representar risco à saúde”.
O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo reforçou que o risco sanitário permanece enquanto as análises estiverem em andamento.
Padilha nega perseguição política à Ypê
Quem também entrou na conversa foi o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Ele negou que haja qualquer perseguição política à marca em razão de doações feitas por integrantes da família Beira à campanha presidencial de 2022.
Para afastar a tese de motivação partidária, Padilha fez questão de lembrar quem indicou o diretor da Anvisa responsável pela decisão: “Foi assessor e secretário-executivo do ministro do governo Bolsonaro e está na Anvisa cumprindo o cargo e tendo a responsabilidade de cumprir papel técnico”, disse sobre Daniel Meirelles.
O ministro também criticou duramente a enxurrada de conteúdo compartilhado no fim de semana: “Tivemos no fim de semana uma enxurrada de vídeos irresponsáveis que desinformam a população, que tentam transformar algo técnico, a preocupação com a saúde das pessoas, em disputa política porque essa empresa financiou campanhas do ex-presidente da República e do seu time”, declarou à imprensa.
O que a Ypê diz sobre o caso
Em nota divulgada no sábado, a Ypê informou que já mantém suspensas as linhas de produção da sua fábrica de líquidos desde o dia 7 de maio. O comunicado esclarece:
“A Ypê esclarece que tem mantido suspensa as linhas de produção da sua fábrica de líquidos desde o último dia 07 de maio, responsáveis pela fabricação dos produtos lava-roupas líquido, lava-louças líquido e desinfetantes de número de lote final 1 (um), objeto da RE n. 1834/2026.
Esta medida continua em curso, independentemente do efeito suspensivo obtido com o nosso recurso, e tem como objetivo acelerar o cronograma e a conclusão de medidas apontadas pela Anvisa durante a última fiscalização.
Com a conclusão de mais esta etapa nos próximos dias, a Ypê reforça sua colaboração máxima com as autoridades na busca por uma solução definitiva para a situação, o mais breve possível, reafirmando, acima de tudo, o seu compromisso permanente com a segurança e a saúde dos consumidores.
A agência reiterou que a responsabilidade sobre recolhimento, troca e devolução dos produtos é da empresa, que deve orientar consumidores por meio de seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC).”
Quando a credulidade vira notícia
Em resumo, vídeos provocativos de bolsonaristas — feitos sob medida para viralizar — encontraram em Janja uma espectadora convicta. A primeira-dama, aparentemente sem desconfiar que boa parte do conteúdo era encenação ou exagero deliberado, elevou o caso ao nível de declaração oficial no Palácio do Planalto. Resta saber quem, afinal, engoliu a história mais difícil de digerir.