Juiz cita rejeição ao funk como prova de preconceito ao condenar pais por ensino domiciliar
Juiz de Jales condenou casal por ensino domiciliar e usou a rejeição das filhas ao funk como indício de preconceito na educação
Por ContraFatos 21/05/2026 Atualizado em 21/05/2026
Juiz Cita Rejeição Ao Funk Como Prova De Preconceito Ao Condenar Pais Por Ensino Domiciliar
Magistrado de Jales usou preferências musicais de adolescentes como argumento na sentença contra casal que adotou homeschooling
Um dos aspectos mais polêmicos da sentença proferida pela 2ª Vara Criminal de Jales, no interior de São Paulo, contra um casal que educava as filhas em casa foi o uso das preferências musicais das adolescentes como elemento de fundamentação. De acordo com a advogada Isabelle Monteiro, que representa a família, o juiz interpretou que o fato de as meninas não gostarem de funk e sertanejo indicaria “suposta discriminação e preconceito na educação” oferecida pelos pais.
Sentença apontou lacunas em temas como sexualidade, gênero e cultura afro-brasileira
A defesa também revelou que a decisão judicial mencionou a ausência de conteúdos relacionados a sexualidade, gênero, cultura afro-brasileira, religiões e cinema nacional no currículo doméstico. Além disso, o magistrado teria considerado que as atividades artísticas disponibilizadas às meninas se limitavam à música e à arte sacra, sem incluir dança e teatro.
Leitura
O casal foi condenado por abandono intelectual. A pena fixada foi de 50 dias de detenção em regime inicial semiaberto. Entretanto, a execução da pena ficou suspensa pelo período de dois anos, condicionada à prestação de serviços comunitários e à matrícula obrigatória das adolescentes em escola regular.
Família rebate acusações e detalha currículo domiciliar
Os pais contestam as conclusões do juiz. Segundo eles, as filhas recebem formação abrangente que contempla disciplinas como português, matemática, história, geografia, ciências e educação física. As adolescentes também estudam inglês, latim e piano, além de participarem de aulas de canto coral na igreja frequentada pela família.
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A mãe das meninas investiu diretamente na própria qualificação para lecionar. Originalmente formada em ciências contábeis, ela cursou matemática e pedagogia com o objetivo de conduzir a educação das filhas. A família destaca que as adolescentes leem aproximadamente 30 livros por ano, utilizam enciclopédias e pesquisas na internet como material complementar e participam de atividades fora de casa, como catequese e passeios culturais.
Debate sobre homeschooling segue sem regulamentação no Brasil
A condenação reacendeu o debate sobre o ensino domiciliar no país. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal se pronunciou sobre o tema e concluiu que a prática não é inconstitucional, mas condicionou sua legalidade à existência de regulamentação federal específica. Até o momento, o principal projeto de lei sobre homeschooling permanece paralisado no Senado Federal, sem previsão de votação.
Nas redes sociais, a sentença gerou ampla repercussão. Diversos pontos da decisão foram questionados por internautas e especialistas, mas a menção às preferências musicais das adolescentes como indício de discriminação foi o aspecto que provocou maior controvérsia.