Wellington Dias: o destino preferido com 17 visitas não registradas
O gabinete do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, foi o local mais frequentado pela lobista: 17 visitas ao todo. Em pelo menos duas dessas ocasiões, Luchsinger levou ao Palácio do Planalto e ao ministério o então sócio de Lulinha, Fernando Bittar. Nenhum desses encontros apareceu nas agendas oficiais.
Em abril de 2024, Luchsinger e Bittar passaram pela catraca privativa do ministério, permaneceram cerca de 50 minutos e, conforme a pasta, discutiram “propostas sobre sistemas integrados”. O ministério nega qualquer desdobramento administrativo decorrente da reunião.
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Entrar no grupo Um episódio ilustra a proximidade: em 9 de março de 2023, Luchsinger visitou Wellington Dias sozinha e ofereceu ao ministro uma caixa de bombons suíços Sprüngli e uma edição de colecionador autografada de O Alquimista, de Paulo Coelho. O cerimonial fotografou o momento, mas a agenda oficial permaneceu em branco.
Clientes e contratos milionários na sequência das visitas
Quatro das 17 visitas ao gabinete de Dias contaram com a presença de Efrain Saavedra, gerente comercial da Duosystem, empresa cujo sistema a lobista tentava emplacar no Sistema Único de Assistência Social (SUAS). O dado ganha relevância quando se observa que, apenas cinco dias após uma visita em 30 de março de 2023, o ministério celebrou contrato de R$ 31 milhões com outra cliente de Luchsinger — a 3STRUCTURE IT, de Cleber Ribas de Oliveira. A PF já identificou relação comercial entre o empresário e a lobista, e ele também aparece em investigações ligadas a Lulinha na Dataprev.
Ministério da Saúde: 16 visitas sem registro e encontro com o Careca do INSS
No Ministério da Saúde, o padrão se repete. Luchsinger fez 16 visitas fora da agenda e apenas uma registrada oficialmente. Na única visita formal, em outubro de 2023, a lobista levou executivos da Duosystem para apresentar um software de gestão de leitos à Secretaria de Atenção Primária.
Já nos encontros não oficiais, reuniu-se com o então secretário-executivo Swedenberger Barbosa (“Berge”) acompanhada de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso na Operação Sem Desconto. O tema em pauta: comercialização de medicamentos à base de canabidiol pela World Cannabis.
A Polícia Federal investiga se Lulinha interveio para facilitar autorizações governamentais nessa área. A empresa RL Consultoria, de Luchsinger, recebeu R$ 1,5 milhão do “Careca”. Em conversas apreendidas durante a investigação, o empresário ordena repasse de R$ 300 mil à lobista “para o filho do rapaz” — referência que, segundo os investigadores, aponta possivelmente para Lulinha como beneficiário final dos valores.
Planalto, Alexandre Padilha e BNDES: outros acessos sem publicidade
Outro cliente frequente de Luchsinger era Sergio Roberto Bringel, do Grupo Bringel. A lobista o conduziu em três ocasiões ao Palácio do Planalto — incluindo o gabinete do ministro Alexandre Padilha — e ao Ministério da Saúde. A partir de 2023, empresas do Grupo Bringel firmaram R$ 7,8 milhões em contratos com a pasta de Saúde, com destaque para R$ 3 milhões junto ao Grupo Hospitalar Conceição.
No BNDES, em julho de 2023, Luchsinger apareceu no gabinete de Aloizio Mercadante acompanhando a Unigel em uma discussão sobre hidrogênio verde — projeto que acabou não avançando. Na ocasião, apresentou-se como “namorada” do diretor de relações governamentais e “nora” do presidente do conselho da companhia. A Unigel desmente qualquer parentesco e nega ter celebrado contrato com ela. As demais empresas citadas optaram pelo silêncio.
O que dizem o governo e os investigados
A Secom, em nome do governo, declarou que os encontros no Planalto “não produziram qualquer desdobramento administrativo, contratual ou regulatório”. As defesas de Luchsinger e de Lulinha sustentam que se tratou de atividade profissional regular e negam pagamentos ao filho do presidente. Fernando Bittar não se pronunciou.
O panorama, contudo, apresenta contornos nítidos: acesso privilegiado, ausência sistemática de registro oficial, presentes simbólicos, presença de sócios e clientes com interesses concretos em contratos e regulações — tudo sob o olhar da PF, que agora conta com aval do ministro André Mendonça para avançar nas apurações de possível uso da proximidade com a família presidencial para abrir portas no Executivo.
Em um governo que se apresenta como adversário das “elites”, o trânsito silencioso de uma lobista amiga do filho do presidente por ministérios e bancos públicos — quase sempre fora da agenda — levanta questionamentos sobre o que efetivamente acontece nos corredores de influência do terceiro mandato de Lula.