Segundo o petista, a burocracia para a concessão de crédito no Brasil é “um verdadeiro inferno”. E completou: “A gente dá o salário como garantia, a gente cria fundo garantidor e, mesmo assim, o pobre é tratado como se não prestasse.”
A frase é forte. O sentimento é real. Mas há um detalhe.
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Entrar no grupo Quem preside o país que mantém uma das maiores taxas de juros reais do planeta? Quem nomeia o ministro da Fazenda, que indica os diretores do Banco Central, que define a política monetária que encarece o crédito?
O mesmo homem que reclama do preço do dinheiro.
O vilão conveniente
Lula fala como se o sistema financeiro operasse num vácuo, alheio às decisões do governo que ele chefia. Como se a Selic — que sob sua gestão atingiu patamares estratosféricos — não fosse o principal fator que encarece o crédito, especialmente para quem mais precisa dele.
O pobre que não consegue financiamento não é vítima de um banqueiro malvado sentado numa cadeira giratória. É vítima de um ambiente econômico em que o governo gasta mais do que arrecada, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter juros nas alturas para segurar o caos que a própria política fiscal cria.
Mas isso não cabe num discurso de campanha.
Subsídio como solução — ou como armadilha?
A resposta de Lula para o problema do crédito caro é previsível: mais subsídio. O presidente se reuniu com ministros da área econômica e presidentes de bancos públicos para discutir o programa Move Brasil, que oferece financiamento com juros reduzidos para profissionais do transporte — taxistas, motoristas de aplicativo e caminhoneiros. Na segunda-feira, o governo ampliou o programa para entregadores e mototaxistas, incluindo motos e bicicletas elétricas.
A pergunta que ninguém faz é simples: quem paga a conta do subsídio?
O contribuinte. O mesmo contribuinte que já paga juros absurdos no cartão de crédito, no cheque especial e no financiamento da casa própria. O governo usa dinheiro público para baratear artificialmente o crédito de um grupo específico — em ano pré-eleitoral — enquanto a política macroeconômica que ele próprio conduz torna o crédito inacessível para todos os demais.
É como provocar o incêndio e depois cobrar pelo extintor.
O hospital, Bolsonaro e o palanque permanente
No mesmo evento, Lula aproveitou para atacar a gestão dos hospitais federais do Rio sob o governo de Jair Bolsonaro. Segundo o petista, as unidades estavam “sucateadas”: “Não funcionava mais a UTI nem as cozinhas. Não tinha mais médicos, não tinha quase nada.”
A crítica ao antecessor é um recurso legítimo. Mas já se passaram mais de dois anos e meio de governo Lula. Em algum momento, a responsabilidade pelo presente precisa recair sobre quem governa no presente.
Atacar o sistema financeiro é fácil. Reduzir o gasto público para permitir que os juros caiam de verdade — e o crédito chegue ao pobre sem precisar de carimbo do governo — é difícil.
Lula escolheu o caminho fácil. Como sempre.
O pobre continua pagando os juros mais altos do mundo. E o presidente continua culpando quem ele quiser — menos o espelho.