“O mundo do consumo mudou”, explicou o presidente, com a tranquilidade de quem não precisa fazer as próprias compras no supermercado. Segundo ele, mulheres e rapazes ficam passando o dedo na tela, comprando coisinhas de R$ 5, R$ 15, R$ 20, e quando chega o fim do mês, gastaram mais do que ganharam.
A solução? Educação financeira. Lula defendeu a criação de diretrizes para ensinar o povo a consumir dentro do que ganha.
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O presidente de um país com Selic a 14,75%, inflação acumulada pressionando os alimentos, dívida pública em trajetória ascendente e gasto estatal em expansão — esse presidente olha para a população e diz: o problema é que vocês não sabem gastar.
Mas há um detalhe.
Enquanto sugere austeridade ao cidadão comum, o governo federal segue ampliando despesas, resistindo a cortes estruturais e alimentando a máquina pública com apetite insaciável. A educação financeira que Lula receita ao povo talvez fizesse bem ao próprio Planalto.
Na mesma entrevista, o presidente fez o que já virou rotina: comparou seus números com os de Bolsonaro. Apresentou indicadores econômicos de sua gestão como prova de melhoria. É o velho jogo do “mas no governo anterior era pior”. Funciona como retórica. Como política econômica, é insuficiente.
Lula também aproveitou para distinguir tipos de endividamento. Dívida para comprar geladeira ou carro? Positiva. Dívida com jogos de azar? Negativa. A classificação é curiosa, especialmente vinda de um governo que liberou as apostas esportivas online e só depois correu atrás para regular um mercado que já drenava bilhões da renda das famílias.
E é aí que a história complica.
O mesmo governo que abriu as comportas das bets agora lamenta que o povo gasta demais. O mesmo presidente que celebra recordes de consumo como prova de sucesso econômico sugere que as pessoas consumam menos. A contradição não é sutil — é escandalosa.
Lula ainda encontrou tempo para ironizar o senador Flávio Bolsonaro, que publicou um vídeo oferecendo carne e refrigerante a jornalistas em Brasília, numa referência às promessas de campanha sobre o preço da picanha. O presidente recomendou que seus opositores acompanhem os dados oficiais do IPCA.
Boa ideia. Vamos todos acompanhar o IPCA. E vamos acompanhar também o preço do arroz, do feijão, do óleo de soja e da carne — que o brasileiro médio compra não pelo celular, por impulso, mas por necessidade.
A entrevista foi ao ar no mesmo horário do primeiro debate presidencial da Band, que reuniu Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD). Lula não participou. Preferiu o ambiente controlado de uma sabatina televisiva.
Nada mais coerente. Quem culpa o celular pelo custo de vida provavelmente também prefere não ser confrontado ao vivo.
A questão de fundo permanece intacta: quando o governo gasta sem limite, quando a política monetária precisa ser brutalmente restritiva para conter os efeitos da política fiscal, quando o Estado cresce e o setor produtivo sufoca — a culpa não é do cidadão que comprou uma camiseta de R$ 20 pelo celular.
A culpa é de quem governa como se o dinheiro público não tivesse dono.