Governo despeja bilhões em crédito, nomeia Boulos como interlocutor e ainda assim não convence quem pedala sob sol e chuva
O governo Lula tem um problema que dinheiro público, até agora, não resolveu: os entregadores de aplicativo não estão convencidos.
Não é por falta de tentativa. A estratégia oficial combina nomeações políticas, linhas de crédito bilionárias e exigências regulatórias para as plataformas. O resultado prático? A remuneração da categoria continua a mesma. Os sindicatos reconhecem os esforços — e é só isso que reconhecem.
Mas há um detalhe.
Para tentar abrir canal com o setor, o governo apostou em Guilherme Boulos, nomeado para a Secretaria-Geral da Presidência com a missão de ser a ponte entre o Planalto e os trabalhadores de aplicativo. A escolha é curiosa. Boulos é um nome forte do ativismo urbano, mas sua trajetória é a de quem milita por mais Estado, mais regulação, mais intervenção. É exatamente o perfil que costuma gerar desconfiança em quem sobrevive do próprio suor, sem carteira assinada e sem patrão fixo.
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Entre as medidas concretas, o governo determinou que as plataformas detalhem os valores repassados a cada entregador. Boa ideia, em tese. Na prática, algumas empresas simplesmente ignoram a exigência. E o governo faz o quê? Segue em frente.
E é aí que a história complica.
A grande aposta do Planalto é financeira. Uma linha de crédito de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem veículos novos com juros subsidiados. Mais R$ 340 milhões do BNDES para a Tembici, empresa de bicicletas elétricas, com o objetivo de baratear o aluguel para entregadores.
Leia de novo: o governo não está aumentando o que o entregador ganha. Está facilitando o endividamento de quem já ganha pouco.
Renato Assad, membro-fundador da Organização Nacional dos Trabalhadores sobre Duas Rodas (ONTDR), resumiu com uma frase que deveria ser emoldurada no Planalto: “É a mesma coisa que dizer que o governo vai abrir uma linha de crédito para que os garis comprem as suas próprias vassouras.”
A comparação é devastadora porque é precisa. O problema da categoria não é acesso a crédito. É a remuneração. São as regras do jogo definidas unilateralmente pelas plataformas. São os algoritmos que determinam quanto vale cada corrida sem qualquer transparência real.
Agora compare. O governo que se apresenta como defensor dos trabalhadores despeja bilhões em crédito subsidiado — ou seja, dinheiro do contribuinte — para que entregadores comprem ferramentas de trabalho, em vez de atacar a questão central: quanto essas pessoas recebem por hora pedalada sob sol, chuva e risco.
Os números do IBGE desenham o perfil da categoria: 1,7 milhão de pessoas, 84% homens e pretos, maioria entre 25 e 39 anos, com rendimento mensal médio de R$ 2.996. É o retrato de uma força de trabalho jovem, predominantemente negra, que depende de algoritmos sobre os quais não tem nenhum controle.
A pergunta que ninguém faz é simples: se o governo realmente quisesse melhorar a vida desses trabalhadores, por que a resposta é sempre mais gasto público em vez de menos interferência nos arranjos que o próprio mercado poderia resolver com concorrência real entre plataformas?
Mais crédito estatal não aumenta salário. Mais burocracia regulatória não gera renda. E nomear um político do Psol para dialogar com entregadores que vivem da lógica do mercado é, no mínimo, uma ironia que o governo parece não perceber.
Lula pode anunciar quantas linhas de crédito quiser. Pode colocar Boulos, Haddad ou quem for na mesa de negociação. Enquanto a resposta para um problema de mercado continuar sendo mais Estado, os entregadores vão continuar pedalando — e o governo vai continuar falando sozinho.
