“Vocês colocaram na Presidência um peão quase analfabeto”, disse Lula aos apoiadores. A frase funciona como âncora emocional. Mas emociona quem? O eleitor que paga a conta de luz? O empreendedor sufocado pela carga tributária? O jovem endividado pelas bets que floresceram sob os olhos do governo?
Mas há um detalhe.
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Entrar no grupo O peão de fábrica ficou milionário. As palestras pagas por empreiteiras que lucraram com o petrolão não cabem no figurino de operário. O PT, que nasceu nas comunidades eclesiais de base e nos sindicatos do ABC, virou sigla de consultores engravatados que enriqueceram nos bastidores do poder. A virtude original morreu — e ninguém no partido teve a decência de fazer o velório.
E é aí que a história complica.
Lula se aliou a todos os partidos que um dia chamou de burgueses. O mensalão foi o dote desse casamento. O petrolão, a lua de mel. E agora, ao pedir um quarto mandato, o presidente finge que nada disso aconteceu — como se a memória do eleitor fosse tão curta quanto o discurso de campanha.
O que Lula não disse em quarenta minutos de discurso é mais eloquente do que tudo o que disse.
Não falou da crise fiscal que deixará de herança ao próximo presidente. Não mencionou os quase 300 bilhões de reais em medidas eleitoreiras que hipotecam o futuro da nação. Não tocou na inflação que corrói o salário de quem ele jura defender. Não disse uma palavra sobre as estatais quebradas, sobre a recessão que bate à porta ou sobre as investigações de corrupção que assombram aliados.
Silêncio cirúrgico. Porque falar do futuro, para este governo, é confessar o fracasso.
Agora compare.
Em 2022, Lula prometeu um governo de frente ampla, de pacificação nacional, de um mandato só. Era o discurso do estadista maduro que voltava para unir o país. Pura ficção eleitoral. O que se viu foi um governo com alma petista pura — aparelhamento, expansão do Estado, gastança sem freio e a velha lógica do “nós contra eles” disfarçada de democracia.
O eleitor que acreditou naquele discurso tem todo direito de se sentir traído. E é para esse eleitor — desconfiado, decepcionado — que Lula agora oferece o quê? Continuidade. Mais do mesmo. A promessa de que “tudo siga como está”.
Para quem está bem, pode até soar razoável. Para o país que afunda em dívida, é uma sentença.
A obra social dos governos petistas é inquestionável. Milhões de brasileiros saíram da miséria. Isso é fato, e negá-lo seria desonestidade intelectual. Mas também é fato que quase vinte anos de poder petista entregam um Brasil ainda profundamente desigual, fiscalmente destroçado e institucionalmente corroído pela roubalheira estatal. Se a medida do sucesso fosse apenas o passado, todo governo seria eterno.
Lula olha para o retrovisor porque o para-brisa mostra um cenário que ele não quer — e não consegue — enfrentar. O sonho ficou no passado. O que resta é a gratidão como moeda eleitoral e a esperança de que o medo do bolsonarismo seja combustível suficiente para mais quatro anos.
É a campanha mais honesta que o PT já fez — não pelo que diz, mas pelo que revela ao calar.