Existe um nome técnico para o que acontece quando um presidente da República retira investigadores de casos que se aproximam do seu governo. Chama-se obstrução à Justiça. E rende cadeia.
De Lulinha ao Banco Master: o padrão se repete — e já não é coincidência
Lula ordenou o retorno de policiais federais que atuavam em investigações ligadas ao escândalo do Banco Master e aos esquemas revelados pela CMPI do INSS. A justificativa oficial? “Reforçar o combate ao crime organizado.” Como se corrupção no coração do governo não fosse crime organizado da mais alta estirpe.
O gesto não é novo. É reincidência.
O presidente já havia afastado o delegado responsável por investigar seu filho, Lulinha, suspeito de envolvimento no escândalo de roubo aos aposentados do INSS. Agora, quando as investigações avançam sobre seu líder no Senado, sobre o entorno mais próximo do poder, a resposta é a mesma: remover quem investiga.
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A deputada Carol de Toni (PL-SC) foi direta: “O alvo real é só um: André Mendonça e os casos do INSS e do banco Master.” Ou seja, o objetivo não é combater crime nenhum. É neutralizar quem combate.
Mas há um detalhe que torna tudo ainda mais escandaloso.
A retirada dos federais aconteceu horas antes da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que tinha como alvo justamente o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado e amigo pessoal de Lula. Wagner é suspeito de receber dinheiro e até apartamento como propina dos esquemas ligados a Daniel Vorcaro, do Banco Master.
E o que fez Lula diante do líder enrolado em corrupção? Afastou-o? Cobrou explicações? Não. Telefonou para se solidarizar.
Agora compare.
O senador Sergio Moro comparou Lula a Richard Nixon, que caiu no escândalo Watergate por tentar obstruir investigações. “Seu governo atrapalha, nos bastidores, as investigações que podem afetá-lo”, denunciou o ex-juiz. A comparação é pesada. E precisa.
O jurista André Marsiglia vai além: para ele, o verdadeiro objetivo de Lula é atingir o ministro do STF André Mendonça, que tem conduzido os casos com independência incômoda para o Palácio do Planalto. A mensagem é clara — quem ousar investigar o entorno presidencial pagará o preço.
Não é coincidência. É padrão.
Enquanto isso, o Judiciário segue na farra dos supersalários
Enquanto o país discute obstrução à Justiça, a própria Justiça segue em seu espetáculo particular de autoindulgência. Mesmo após o STF esboçar algum esforço de moralização, os pagamentos acima do teto constitucional continuam jorrando sem constrangimento.
- Tribunal de Justiça do DF: uma juíza aposentada recebeu R$ 495.081,68 líquidos em maio. O subsídio era de R$ 12.995,84 — todo o restante era composto por penduricalhos como “direitos pessoais”, “indenizações” e “direitos eventuais”.
- TJ do Maranhão: um desembargador recebeu R$ 272,1 mil. Nada foi retido em Imposto de Renda ou Previdência.
- TJ do Rio de Janeiro: uma desembargadora aposentada recebeu pagamento líquido acima de R$ 200 mil. O Rio, aliás, lidera a farra: pelo menos quatro pagamentos acima de R$ 150 mil em maio.
- Superior Tribunal Militar: o quarto maior pagamento do Judiciário no mês: R$ 163.795,12 líquidos.
O ministro Vital do Rego, presidente do TCU, diz ser contra os penduricalhos que ampliam férias de ministros para 60 dias por ano. Promete cortar — mas só se a proposta chegar até ele. A coragem institucional brasileira em sua forma mais pura: ser contra, desde que não precise fazer nada a respeito.
Outros sinais do tempo
A Procuradoria-Geral da República levou mais de 30 dias para se manifestar sobre a lei da dosimetria — embora o prazo concedido ao procurador-geral fosse de apenas três dias. O descaso com prazos legais já nem surpreende. É rotina.
No campo eleitoral, o Paraná Pesquisas mostra Tarcísio de Freitas liderando a disputa pela reeleição em São Paulo com 51,4% no segundo turno — e 55,3% dos eleitores acreditam que ele será vitorioso. O União Brasil, partido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, derreteu: dos dez senadores que tinha em 2023, sobraram três.
E Donald Trump, perguntado sobre Lula, não poderia ter sido mais eloquente: “Não poderia me importar menos.”
Quando o presidente da maior potência do planeta diz que o presidente do Brasil é irrelevante, e o presidente do Brasil responde retirando policiais de investigações sobre seus aliados, o quadro está completo. Da tal química que Lula prometia ao país, só sobrou o volátil — e o cheiro de coisa queimada.
