Depois de 20 anos de PT no poder, o presidente descobre que o crime organizado domina territórios no Rio — e pede mais um mandato para resolver
Existe algo mais previsível do que um político em campanha prometendo resolver um problema que ele mesmo teve décadas para enfrentar?
Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palanque em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro, neste sábado, 22, e fez uma promessa espetacular: retirar as facções criminosas dos territórios fluminenses. Sem “carnaval”, sem “pirotecnia”. Só prisões.
Lindo. Comovente. Tem só um problema.
Lula governou o Brasil de 2003 a 2010. Voltou em 2023. Isso são três mandatos. Doze anos no Palácio do Planalto. Some os anos de Dilma Rousseff — sua criação política — e o PT acumula duas décadas no comando do país. Vinte anos.
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E as facções? Cresceram. Expandiram. Dominaram territórios. Recrutaram jovens. Armaram-se. Sofisticaram suas operações. Tudo isso debaixo do nariz de quem agora promete resolver o problema — caso ganhe um quarto mandato.
“Nós vamos tirar os bandidos do território de vocês”, disse o petista. A pergunta que ninguém faz é simples: por que não tirou antes?
Não faltou tempo. Não faltou orçamento federal. Não faltou maioria no Congresso. O que faltou, então?
Mas há um detalhe que torna a promessa ainda mais reveladora.
Segundo o Datafolha, 19% dos brasileiros afirmaram em 2025 viver perto de áreas dominadas por facções ou milícias. Em 2024, o índice era de 14%. Ou seja: o problema piorou durante o próprio mandato atual de Lula. São pelo menos 28,5 milhões de pessoas convivendo com o crime organizado à porta de casa — enquanto o presidente estava sentado na cadeira mais poderosa do país.
E é aí que a história complica.
Lula agora associa sua promessa à PEC da Segurança Pública, que amplia a participação da União no combate ao crime. A Câmara aprovou o texto, que tramita no Senado. Ele também fala em recriar o Ministério da Segurança Pública e ampliar a estrutura da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.
Tudo muito bonito no papel. Mas a pergunta persiste: por que não fez isso em 2023, quando assumiu o terceiro mandato? Por que não fez em 2003, quando chegou ao poder pela primeira vez? Por que a segurança pública só vira prioridade quando há uma eleição no horizonte?
Agora compare.
O combate ao crime organizado ganhou centralidade na campanha de 2026 em parte porque os Estados Unidos classificaram o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Ou seja, foi preciso que uma potência estrangeira nomeasse o problema para que o governo brasileiro decidisse tratá-lo com seriedade — ao menos retoricamente.
O senador Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na corrida presidencial, também colocou o combate às facções entre suas principais bandeiras. A disputa pelo tema revela algo que o PT preferiu ignorar por duas décadas: segurança pública não é pauta secundária. É a primeira demanda de quem vive nas periferias que o partido diz representar.
Não é coincidência que a promessa tenha sido feita em Bangu — território que conhece de perto a presença do crime organizado. O cenário foi escolhido com precisão cirúrgica de marqueteiro. O discurso, porém, soa como um déjà vu para quem acompanha a política brasileira há mais de cinco minutos.
O padrão é sempre o mesmo: o PT governa, ignora a segurança pública, deixa o crime organizado expandir, e quando chega a eleição, promete fazer o que nunca fez. É o eterno recomeço de quem trata o poder como direito adquirido e a incompetência como detalhe menor.
Vinte anos. Três mandatos. E as facções nunca estiveram tão fortes.
Se Lula precisa de um quarto mandato para resolver o que não resolveu em doze anos de governo, talvez o problema não seja falta de tempo. Talvez o problema seja ele.
