“Projetos de Estado não podem depender de governos de ocasião”
Guimarães, que é um dos principais especialistas no setor nuclear naval, afirmou que o Brasil vive um ciclo de promessas não cumpridas, marcado por descontinuidade e desinteresse institucional. Ele lembrou que, enquanto autoridades exaltam publicamente a importância da Amazônia e da defesa marítima, falta financiamento concreto para manter a continuidade dos programas.
“Projetos de Estado não podem depender da vontade do governo de ocasião”, escreveu o militar, ressaltando que decisões de curto prazo têm fragilizado iniciativas estratégicas e afastado o país de uma política de defesa estável.
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Entrar no grupo Histórico de avanços e retrocessos
O capitão destacou que o Programa Nuclear da Marinha recebeu forte apoio nos anos 1980, período em que o Brasil dominou parte do ciclo do combustível nuclear e consolidou as bases do projeto do submarino de propulsão nuclear. O cenário, no entanto, começou a mudar nas décadas seguintes, com a mudança das prioridades nacionais — que passaram a focar em pautas sociais e econômicas — e a adesão ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em 1998, o que impôs restrições técnicas e políticas às ambições nucleares do país.
Segundo Guimarães, o PNM passou, desde então, a sobreviver de maneira “vegetativa”, dependendo de recursos esporádicos e da persistência de militares e cientistas envolvidos no projeto.
Apenas em 2008, com a criação de um novo programa de defesa nacional, houve uma retomada parcial. Ainda assim, crises econômicas, cortes orçamentários e disputas políticas entre 2015 e 2025 interromperam novamente os avanços, expondo, segundo o militar, a vulnerabilidade de projetos que dependem do ciclo político.
Falta de cultura de defesa e desinformação
Guimarães apontou também um problema estrutural de mentalidade nacional. Em suas palavras, o Brasil sofre com a ausência de uma cultura de defesa, o que dificulta o entendimento da população sobre temas estratégicos.
“Para grande parte da sociedade, soberania e segurança internacional são temas distantes, frequentemente confundidos com segurança pública”, observou. Ele acrescentou que esse distanciamento facilita campanhas de desinformação, nas quais o programa nuclear brasileiro é falsamente associado a objetivos bélicos, o que mina o apoio social e político às iniciativas da Marinha.
Risco de perda tecnológica e apelo por uma estratégia nacional
O militar alertou que, sem apoio político e respaldo social estável, o Brasil corre o risco de perder o capital humano e tecnológico acumulado em décadas de pesquisa. Ele defendeu a criação de uma estratégia nacional de segurança, sustentada por planejamento plurianual e proteção legal específica, capaz de garantir a continuidade institucional dos projetos da Marinha.
“O submarino nuclear não é apenas um artefato militar, mas um ato de soberania”, afirmou Guimarães. Para o oficial, somente uma política de Estado consistente pode impedir que o país desperdice investimentos científicos, conhecimento técnico e prestígio internacional construídos ao longo de mais de 40 anos.