E o que fez o governo brasileiro no restante do tempo? Antagonizou.
Lula usou cada palanque disponível para cutucar o governo americano em seus comícios pré-eleitorais. O Itamaraty — que deveria ser o último bastião da sobriedade diplomática — decidiu que era boa ideia publicar comunicados oficiais insinuando que as Forças Armadas dos EUA poderiam invadir o Brasil. Diplomacia de botequim travestida de nota oficial.
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Entrar no grupo Mas há um detalhe.
O efeito dessa negligência não é acidental. É desejado. A aposta do Planalto é que o tarifaço repita o roteiro do ano passado: inflamar o nacionalismo de ocasião e produzir uma alta nas pesquisas de opinião. O governo quer o inimigo externo. Precisa dele.
E quem paga a conta? Não é Lula. Não é o Itamaraty. São os exportadores brasileiros. São os trabalhadores que perdem empregos quando o mercado internacional se fecha. São os mesmos de sempre.
O chanceler fantasma
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, não compareceu à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Fugiu de dar explicações. A oposição articula nova convocação, e Marcel Van Hattem já levou o caso à PGR, acusando o chanceler de crime de responsabilidade.
A pergunta que ninguém faz é simples: o Itamaraty sabia antecipadamente que as tarifas seriam aplicadas e, mesmo assim, pouco fez?
O deputado Helio Lopes cobrou detalhamento da negociação — ou da falta dela. Quer saber também sobre as visitas de Daniel Vorcaro ao Palácio do Planalto, especialmente porque os próprios Estados Unidos destacaram a corrupção brasileira como fator relevante. Outra frente já pediu ao Tribunal de Contas da União que investigue o impulsionamento de anúncios do governo sobre o tarifaço — propaganda paga com dinheiro público para capitalizar uma crise que o próprio governo ajudou a criar.
Soberania de papel
A nota da liderança do PT no Senado sobre o tarifaço usou a palavra “soberania” doze vezes. “Lula” apareceu apenas duas. A prioridade é clara: o discurso. A substância fica para depois.
Enquanto isso, Jaques Wagner — que deixou a liderança do governo no Senado depois de virar alvo da Polícia Federal no caso Master — explicou que os EUA impuseram restrições ao Brasil “por conta da criatividade da nossa gente, que criou o Pix”. É o tipo de argumento que dispensa comentário.
Marco Rubio, secretário de Estado americano, culpou Lula diretamente pelo tarifaço. A resposta do governo? Lula foi orientado a não rebater. O mesmo presidente que não perde uma oportunidade de provocar Trump em palanques ficou em silêncio quando precisava falar onde importa: nos canais diplomáticos.
Autoridades do alto escalão do governo Trump refutaram à CBS qualquer motivação política na decisão. A tarifa, dizem, é técnica e comercial. Mas o governo brasileiro prefere a narrativa do vilão estrangeiro — é mais útil eleitoralmente.
Como disse o senador Flávio Bolsonaro: “Estamos num avião sem piloto.”
A metáfora é generosa. Um avião sem piloto ao menos não sabota a própria rota. O governo Lula fingiu negociar, torceu pelo pior cenário e agora tenta vender o desastre como prova de soberania. É o Estado brasileiro no seu melhor papel: criando o problema, cobrando o imposto sobre ele e ainda pedindo aplausos.
Afinal, este é um governo que ama tanto tributo que gosta até de tarifaço — desde que a conta vá para outro.