Mas é claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
O cardápio da generosidade
A lista de medidas impressiona pela amplitude — e pela conveniência. São programas novos, reforços em iniciativas existentes e subsídios variados que cobrem praticamente todos os setores com potencial eleitoral.
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Entrar no grupo - Plano Brasil Soberano 2.0: R$ 15 bilhões em crédito via BNDES para exportadoras
- Crédito para indústria 2.0 e bens de capital verde: R$ 10 bilhões para tecnologia 4.0 e economia verde
- Moviagrícola: R$ 10 bilhões em crédito para equipamentos agrícolas
- Isenção do Imposto de Renda: R$ 31 bilhões para faixas salariais específicas
- MOV: R$ 21,2 bilhões em linhas de crédito para caminhões e ônibus
Renegociação de dívidas, pacote de segurança pública, controle de preços de combustíveis. Cada semana, um novo presente. Cada anúncio, um novo aceno a um segmento específico do eleitorado.
A pergunta que ninguém faz é simples: se essas medidas são tão necessárias e urgentes, por que não foram implementadas no primeiro dia do mandato?
A mágica da “neutralidade fiscal”
O governo garante que boa parte das medidas é fiscalmente neutra. A isenção do Imposto de Renda, por exemplo, seria compensada pela taxação mínima de super-ricos. Os custos com combustíveis seriam cobertos por royalties e receitas do petróleo.
É uma conta bonita no papel. Tão bonita que deveria despertar desconfiança imediata.
Neutralidade fiscal é o eufemismo favorito de governos que querem gastar sem parecer que estão gastando. Na prática, significa tirar de um bolso para colocar no outro — e torcer para que ninguém perceba que os dois bolsos são do contribuinte.
E é aí que a história complica. Compensar isenções com novas tributações não é neutralidade. É redistribuição. E redistribuição com endereço eleitoral tem um nome antigo na política brasileira: compra de votos institucionalizada.
O padrão se repete
Não há nada de novo neste roteiro. Governos de todos os matizes políticos recorrem ao mesmo expediente quando as pesquisas apertam. A diferença é a escala. R$ 227 bilhões não é um pacote. É uma bazuca apontada para o Tesouro Nacional em nome da sobrevivência política.
Lula está sendo reprovado por 51% da população, segundo o Datafolha. A segurança pública e a saúde têm as piores avaliações do mandato. A resposta do governo não é corrigir rumos, reformar estruturas ou enfrentar os problemas de fato. A resposta é abrir a torneira do crédito subsidiado e da isenção fiscal.
Agora compare: quando governos anteriores adotavam pacotes semelhantes às vésperas de eleições, a cobertura midiática e a oposição classificavam o gesto como populismo irresponsável. Curioso como o mesmo mecanismo, operado por mãos diferentes, recebe tratamentos tão distintos.
O livre mercado não precisa de pacotes de bondade estatal. Precisa de regras claras, estabilidade e um governo que resista à tentação de usar o dinheiro público como instrumento de campanha. Mas pedir isso a um governo em queda nas pesquisas é como pedir sobriedade a um náufrago agarrado a uma boia furada.
R$ 227 bilhões. É esse o preço que o contribuinte brasileiro pagará para que um projeto político tente se perpetuar no poder. A conta, como sempre, chegará depois da eleição. E quem vai pagá-la não será quem a assinou.