Mas há um detalhe.
A PF já abriu três investigações envolvendo o filho do presidente Lula. Uma delas apura suspeitas de tráfico de influência em negócios que conectavam o Careca à empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. Os investigadores encontraram cinco transferências de R$ 300 mil — totalizando R$ 1,5 milhão — de uma empresa ligada ao Careca para a empresa da lobista. Mensagens apreendidas mostram Roberta falando em acionar Lulinha para ajudar o Careca em projetos na área da saúde.
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Entrar no grupo E não eram projetos modestos. O grupo tentou emplacar contratos milionários no Ministério da Saúde, incluindo uma proposta de R$ 627 milhões para fornecimento de medicamentos à base de cannabis. Os contratos não avançaram. As defesas negam irregularidades. Mas as mensagens existem. O dinheiro circulou. E os nomes estão lá.
Agora compare.
O senador Carlos Viana, que presidiu a CPMI do INSS, cobrou o presidente do STF, Edson Fachin, pedindo que identifique eventual processo sobre o sigilo e viabilize uma análise urgente da restrição. A provocação foi cirúrgica: Viana lembrou o empenho de Fachin pela abertura dos arquivos do Banco Master. “Não pode haver um princípio de transparência para o Banco Master e outro para o escândalo do INSS”, afirmou o senador.
Difícil discordar. Se a transparência é um valor — e não apenas um instrumento de conveniência —, por que os registros de visitas de um lobista investigado por fraudes bilionárias permanecem trancados? A Advocacia do Senado alegou proteção de dados pessoais e prerrogativas parlamentares. Proteção de dados de quem? Prerrogativas para quê? Para esconder que senadores receberam um fraudador em seus gabinetes?
A CPMI do INSS encerrou seus trabalhos em março sem sequer aprovar relatório final. Uma comissão parlamentar de inquérito mista que investigou um dos maiores esquemas de fraude contra aposentados brasileiros — e terminou sem conclusão. Sem relatório. Sem responsabilização. Sem nomes.
E é aí que a história complica.
Quando o sigilo foi imposto, em 2025, o país ainda não conhecia a extensão das ligações entre o Careca, Lulinha e auxiliares do presidente Lula. O cenário mudou radicalmente. As investigações avançaram. Os vínculos ficaram evidentes. O dinheiro foi rastreado. Mas o Senado segue agarrado a uma decisão tomada quando o quadro era outro — como se a realidade pudesse ser congelada por decreto.
A pergunta que ninguém faz é simples: se os registros de visitas não revelam nada comprometedor, por que escondê-los por um século?
Sigilo de 100 anos não é instrumento de proteção institucional. É instrumento de ocultação. E quando se oculta a identidade de quem abriu as portas do Senado para o operador de um esquema que desviou dinheiro de aposentados, não é a instituição que está sendo protegida. São os cúmplices.
O contribuinte brasileiro pagou — e continua pagando — as fraudes do INSS. Pagou com seus impostos, com os benefícios desviados, com a previdência saqueada. E agora paga também com o silêncio de quem deveria ser o primeiro a exigir respostas: o próprio Senado Federal.
Transparência seletiva não é transparência. É blindagem com verniz institucional. E sigilo de 100 anos sobre as visitas de um criminoso investigado ao coração do Poder Legislativo não protege a democracia. Enterra-a — devagar, metodicamente, no escuro.