O mesmo recurso que o presidente chamou de esconderijo em 2022 virou ferramenta oficial do Ministério da Fazenda para blindar o mercado de apostas
Tem promessa de campanha que envelhece mal. E tem promessa que apodrece em praça pública, sob holofote.
Em setembro de 2022, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva subiu às redes sociais com a fúria de um cruzado da transparência. “No primeiro dia de governo nós vamos fazer um decreto para acabar com o sigilo de 100 anos”, publicou. “O povo deve ver o que estão escondendo.”
Bonito. Enfático. Inequívoco.
Agora compare.
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Em 2026, o Ministério da Fazenda — sob o comando de Fernando Haddad, escolhido a dedo pelo mesmo Lula — invocou exatamente o sigilo centenário da Lei de Acesso à Informação para trancar os documentos que liberaram o funcionamento de casas de apostas eletrônicas no Brasil. Pareceres técnicos, problemas na documentação das empresas, identidade dos verdadeiros donos das bets que ganharam o carimbo do governo federal — tudo trancado. Tudo escondido. Por cem anos.
O povo que queria ver? Que espere até 2126.
A banca russa que ninguém quer mostrar
O caso da 1xBet é o mais escandaloso da coleção. A empresa, de origem russa, está proibida em vários países. Operou ilegalmente no Brasil enquanto aguardava a licença do governo Lula. Processos judiciais comprovam que a companhia sequer funciona no endereço oficial que forneceu à Receita Federal.
Quando o jornal O Estado de S. Paulo pediu acesso aos documentos por meio da LAI, a equipe de Haddad negou. A justificativa? Proteger a “intimidade e os dados pessoais” dos sócios das bets.
Não é piada. É a desculpa oficial.
O ministério rejeitou até mesmo entregar cópias com as informações sensíveis borradas. A razão: separar os dados daria um “esforço desproporcional” por falta de funcionários.
Traduzindo: o mesmo governo que prometeu abrir tudo agora diz que não tem gente suficiente para deixar o povo ver alguma coisa.
Números que desmentem a narrativa
Mas há um detalhe que torna a contradição ainda mais indigesta. Estatísticas da Controladoria-Geral da União publicadas pelo O Globo mostram que, nos dois primeiros anos do atual mandato, o governo Lula rejeitou 3.244 pedidos de informação alegando proteção de dados pessoais. A gestão anterior, nos mesmos dois primeiros anos, barrou 4.095 — número maior, mas na mesma ordem de grandeza.
O ritmo de censura é irmão gêmeo. A diferença é que um governo nunca prometeu acabar com o sigilo. O outro fez dessa promessa uma bandeira de campanha.
A CGU chegou a editar normas internas e acenou com um projeto de lei para revogar o sigilo centenário previsto no artigo 31 da LAI. O projeto, evidentemente, segue engavetado.
Transparência seletiva: o esporte preferido de Brasília
A pergunta que ninguém faz é simples: por que o governo protege com tanto zelo justamente o mercado das apostas — um setor que o próprio Lula agora ensaia criticar publicamente?
Se o presidente de fato considera as bets um problema, como sugerem seus discursos recentes, por que esconder os documentos que mostram como essas empresas foram autorizadas? Que critérios técnicos foram usados? Quem aprovou a papelada incompleta? Quem são os donos reais dessas operações?
A resposta mais generosa é incompetência. A mais realista é que a transparência, para este governo, nunca foi princípio — foi slogan de campanha. Uma ferramenta descartável, útil quando se está fora do poder e inconveniente quando se está dentro.
Lula condenou o sigilo de 100 anos quando o segredo não era dele. Agora que os arquivos trancados protegem suas decisões, o sigilo centenário virou recurso administrativo perfeitamente razoável.
Não é coincidência. É padrão.
O poder que promete luz sempre encontra, ao governar, uma razão perfeitamente justificável para apagar as lanternas. E a razão é sempre a mesma: no escuro, ninguém vê quem se serve primeiro.
