A pergunta que ninguém faz em Brasília é simples: como reage o presidente que se apresenta ao mundo como guardião da democracia?
Com silêncio. Com constrangimento. Com aquela diplomacia seletiva que já virou marca registrada.
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Entrar no grupo O modelo que ninguém quer nomear
A última eleição na Nicarágua, em 2021, já era uma farsa. Opositores presos, candidatos impedidos de concorrer, denúncias de fraude ignoradas por quem deveria se importar. O roteiro é conhecido — e não é exclusividade nicaraguense.
Ortega governa desde 2007, após já ter comandado o país nos anos 1980. Em 2025, uma reforma constitucional ampliou seu mandato para seis anos e transformou sua esposa, Rosario Murillo, em “copresidente”. O casal consolidou o controle total sobre o Estado — Executivo, Legislativo, Judiciário, tudo.
A ONU acusa o regime de violar sistematicamente os direitos humanos. Organizações internacionais classificam a Nicarágua como Estado autoritário. Nada disso é novidade. Nada disso é segredo.
E nada disso parece incomodar quem deveria ser incomodado.
A hipocrisia que não cabe em discurso de posse
Lula construiu uma narrativa internacional como defensor da democracia. Fala em soberania popular. Em respeito às instituições. Em diálogo. Palavras bonitas que derretem em contato com a realidade da sua diplomacia.
Porque a lista de companhias é reveladora. Ortega na Nicarágua. Maduro na Venezuela. O regime cubano. A esquerda latino-americana que Lula abraça não é a dos socialdemocratas europeus que ele gosta de citar em fóruns internacionais. É a dos caudilhos que prendem opositor, censuram imprensa, manipulam eleições — ou, como agora, simplesmente as abolem.
Agora compare: quando a crise é do outro lado do espectro político, o governo brasileiro emite notas, convoca embaixadores, sobe o tom. Quando o ditador é amigo, a resposta é um murmúrio diplomático que ninguém ouve.
Isso tem nome. Seletividade.
O que está em jogo não é a Nicarágua
Ortega aboliu eleições. Mas o problema não é apenas o que acontece em Manágua. O problema é o que isso revela sobre quem se cala.
Um presidente que diz defender a democracia, mas mantém relações calorosas com quem a enterra, não está sendo pragmático. Está sendo cúmplice — não pela ação, mas pela omissão calculada.
Defender a democracia não é um exercício retórico de palanque. É uma posição que se demonstra nas horas difíceis, quando o ditador do outro lado da mesa é seu aliado ideológico.
Ortega acaba de dizer ao mundo que não haverá mais eleições na Nicarágua. E Lula, que tanto fala em democracia, terá que decidir o que fazer com essa informação.
Ou melhor — terá que decidir se continua fingindo que não a recebeu.