Parasita que se alimenta de tecido vivo de animais foi confirmado em bezerro no sul do Texas, marcando o primeiro caso em décadas no território americano
Após décadas considerada erradicada nos Estados Unidos, a bicheira-do-novo-mundo voltou a ser detectada em gado americano. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) confirmou na quarta-feira (3) que um bezerro de três semanas de idade, na cidade de La Pryor, no sul do Texas, estava infestado pelo parasita. A análise foi realizada pelos Laboratórios Nacionais de Serviços Veterinários em Ames, no estado de Iowa.
A bicheira-do-novo-mundo é o estágio larval da Cochliomyia hominivorax, uma espécie de mosca-varejeira cujas larvas carnívoras se alimentam exclusivamente do tecido de animais de sangue quente. As fêmeas adultas depositam ovos em feridas recentes dos hospedeiros. As larvas podem danificar órgãos vitais e provocar infecções bacterianas graves, levando inclusive à morte do animal.
Impacto econômico pode ultrapassar bilhões de dólares
Embora não haja risco direto para a segurança alimentar, especialistas alertam que uma infestação generalizada pode comprometer seriamente a produção de alimentos nos EUA. As consequências econômicas seriam devastadoras, com potencial de custar bilhões de dólares à economia. O encarecimento da carne bovina é outro cenário preocupante, considerando que os consumidores americanos já enfrentam preços recordes.
Para se ter uma dimensão do risco, o pior surto registrado no país ocorreu em 1972. Naquela ocasião, o USDA estimou 90 mil casos. Segundo o Banco da Reserva Federal de Dallas, uma repetição desse cenário poderia gerar prejuízos superiores a US$ 3 bilhões apenas no sudoeste americano.
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Ações de contenção e combate ao parasita
Diante da confirmação, o USDA mobilizou equipes de resposta no Texas. As medidas incluem a criação de uma zona de infestação de 20 quilômetros ao redor do foco, implementação de quarentenas, controles de movimentação e vigilância intensificada na região. Também está sendo acelerada a liberação direcionada de moscas estéreis para sobrecarregar as fêmeas férteis e conter a disseminação.
“Se todos trabalharmos juntos e seguirmos os protocolos de tratamento animal e as orientações sobre restrição de movimentação, não há motivos para acreditar que essa incursão resultará no estabelecimento da praga em nosso país”, declarou a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, durante coletiva de imprensa.
Técnica das moscas estéreis: a principal arma contra a praga
Max Scott, entomologista e fitopatologista da Universidade Estadual da Carolina do Norte, que modificou geneticamente a mosca-varejeira para impedir sua reprodução, explicou como funciona o principal método de combate. Os insetos são criados em fábricas e esterilizados por exposição a raios gama ainda na fase de pupa. Em seguida, são liberados em quantidade suficiente para superar numericamente as moscas férteis da região. Quando uma fêmea fértil acasala com um macho estéril, não há descendentes.
“O USDA, ao longo de 50 anos, conseguiu erradicar essa mosca até a fronteira Panamá-Colômbia”, afirmou Scott. “Foi um grande esforço de muita gente, mas infelizmente é um feito pouco conhecido, apesar de ter sido uma história de sucesso. Eles conseguiram mantê-la lá, longe daqui, por 20 anos, mas a barreira falhou há alguns anos, e as moscas se espalharam rapidamente pela América Central até chegarmos onde estamos hoje.”
Aumento de casos na América do Sul acendeu alerta
A bicheira-do-novo-mundo havia sido declarada erradicada nos EUA há décadas, graças à combinação de moscas estéreis, campanhas de conscientização e ações de controle em outros países. No entanto, um crescimento repentino de casos na América do Sul passou a ser monitorado de perto por especialistas em saúde pública e pelo próprio Departamento de Agricultura.
Em maio de 2025, o USDA suspendeu a importação de animais vivos pelos portos de entrada ao longo da fronteira sul do país. Cães farejadores foram posicionados na divisa com o México, treinados para detectar o parasita. Equipes americanas também foram enviadas ao México e ao Panamá para auxiliar no aumento da produção de alimentos — especificamente a criação de moscas estéreis.
Além disso, os EUA destinaram US$ 750 milhões para a construção de uma instalação no Texas capaz de produzir centenas de milhões de moscas estéreis por semana. A inauguração está prevista para o próximo ano.
Riscos para humanos, animais de estimação e vida selvagem
O parasita não se transmite de animal para animal como uma doença contagiosa. Contudo, oferece ameaça à vida selvagem e a animais domésticos. Veterinários no Texas, Arizona e Novo México foram orientados a ficar atentos a possíveis novas infecções.
Brooke Rollins alertou, na quarta-feira, os donos de animais de estimação para que observem sinais de desconforto, feridas abertas ou presença de larvas e ovos próximos a orifícios do corpo de seus pets.
Quanto aos seres humanos, a secretária afirmou na terça-feira (2) que a ameaça à saúde humana é extremamente baixa e que a mosca-varejeira não compromete a segurança alimentar. Ainda assim, ressaltou: “não há dúvida de que esta é uma ameaça muito, muito séria para o nosso gado“.
Quem está mais vulnerável entre os humanos?
Casos em humanos são raros, mas podem ser fatais. As pessoas com maior risco são aquelas que trabalham diretamente com gado ou outros animais de sangue quente em áreas com presença das moscas, além de quem passa muito tempo ao ar livre — especialmente dormindo ao relento.
Indivíduos com condições de saúde que provocam sangramento ou feridas abertas também podem ser suscetíveis. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, qualquer ferida aberta, mesmo um pequeno arranhão ou picada de inseto, pode atrair essas moscas.
O último caso registrado em território americano envolveu uma pessoa em Maryland, em agosto, que havia viajado para fora do país. A paciente se recuperou completamente.

Uso emergencial de medicamentos já foi autorizado
Em agosto, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA autorizou o uso emergencial de medicamentos para tratar ou prevenir infestações em animais. Brooke Rollins informou na quarta-feira que um carregamento desse tratamento já está a caminho do sul do Texas.
O USDA também criou novos protocolos de monitoramento, testes e quarentena como resposta ao surto que se espalha pela América Central e do Sul.
