Tese de cadastros represados perde força com dados recentes
Especialistas haviam levantado a hipótese de que o salto registrado em 2023 se explicaria por cadastros represados durante a crise sanitária. A ideia era que a pandemia teria atrasado o registro de pessoas em situação de rua, gerando uma explosão temporária nos anos seguintes. Se fosse esse o único fator, os números tenderiam a desacelerar com o tempo. Porém, a curva segue em ascensão contínua, enfraquecendo essa explicação.
Plano Ruas Visíveis não conteve o avanço
Em dezembro de 2023, o governo Lula lançou o Plano Nacional Ruas Visíveis, anunciado como resposta à crise, com investimento inicial de R$ 982 milhões. Naquele mês, 262,5 mil moradores de rua estavam inscritos no CadÚnico. Desde então, mais 130 mil registros foram adicionados à base, indicando que o programa não conseguiu frear o crescimento.
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Entrar no grupo Bolsa Família para moradores de rua gera polêmica na Câmara
Por meio de uma portaria de julho de 2025, o governo federal incluiu famílias com pessoas em situação de rua entre os grupos prioritários para ingresso no Bolsa Família. A medida foi apresentada como forma de ampliar a proteção social a essa população.
Contudo, a iniciativa tem gerado questionamentos no Congresso. O deputado Hélio Lopes (PL-RJ) apresentou requerimento de informação ao governo citando denúncias de que organizações criminosas estariam se apropriando de cartões do Bolsa Família de pessoas em situação de rua. O tema foi objeto de audiência convocada pelo deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) no começo de junho.
Governo atribui alta a múltiplos fatores e critica gestão anterior
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) afirmou à Gazeta do Povo que “o número de pessoas em situação de rua aumentou por fragilização de vínculos familiares, como casos de violência e abuso, além de desemprego, crises econômicas e eventos climáticos extremos”. A pasta acrescentou que “o Cadastro Único também ficou mais eficiente”.
Em 2025, o MDS disse à Agência Brasil que havia retomado, em 2023, capacitações para entrevistadores e operadores do CadÚnico, fortalecendo a atuação dos municípios. A pasta também atribuiu ao governo Bolsonaro uma suposta subnotificação entre 2019 e 2022. No entanto, quando questionado pela reportagem sobre quais estudos, relatórios técnicos ou dados sustentam essa tese, o MDS não respondeu a esse ponto específico.
Ex-ministro de Bolsonaro rejeita tese de subnotificação
O deputado federal Osmar Terra (PL-RS), que ocupou o cargo de ministro da Cidadania entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2020, contestou a versão do governo atual. “Não existe subnotificação no governo anterior. Quem faz esse levantamento, quem dá e fornece esses números, são os municípios. São, em geral, funcionários dos municípios, da área social, que fazem esse levantamento. Então, não depende do governo federal o número. O número não é inventado pelo governo federal. O número já vem dos municípios, e são as mesmas pessoas, normalmente, que estão num período de governo federal e no outro período de governo federal subsequente”, diz.
Cautela na interpretação dos dados
É necessário ressaltar que os números do CadÚnico não equivalem a um censo nacional de pessoas vivendo nas ruas. Trata-se de uma plataforma de registros, e a elevação pode refletir, em parte, melhorias no processo de cadastramento e atualização de informações pelos municípios, além do agravamento da situação social. Ainda assim, a comparação ao longo do tempo é considerada relevante por utilizar a mesma base de forma consistente e porque o aumento tem sido sustentado ao longo dos anos.
Norte e Nordeste lideram crescimento proporcional
Embora os grandes centros do Sudeste sigam concentrando o maior contingente absoluto de população de rua cadastrada, as regiões Norte e Nordeste apresentaram a expansão proporcional mais acelerada.
O Norte registrou o maior salto: de 4,9 mil cadastros em janeiro de 2023 para 22,8 mil em junho de 2026, uma alta de 367%. No Nordeste, o crescimento foi de 109%, passando de 29,1 mil para 61 mil registros. As demais regiões ficaram abaixo da média nacional, porém com números ainda expressivos: 85% no Sudeste, 83% no Sul e 79% no Centro-Oeste.
Destaques estaduais
Roraima, estado fronteiriço com a Venezuela e impactado pela crise migratória do país vizinho, viu o número de moradores de rua cadastrados saltar de 1.460 em janeiro de 2023 para 10.162 em junho de 2026 — quase sete vezes mais. Em Rondônia, o crescimento foi de 450%.
São Paulo, que lidera em números absolutos no país, registrou aumento de 88% no mesmo período.