Operação Última Parada expõe elo entre crime organizado, transporte público e política em São Paulo
A prisão do vereador petista Senival Moura, ocorrida na manhã desta quinta-feira (25), trouxe à tona um cenário alarmante sobre a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro de estruturas do poder público paulista. O caso foi revelado no âmbito da Operação Última Parada, que investiga a presença da facção em empresas de transporte coletivo da capital.
O Partido dos Trabalhadores se pronunciou sobre o episódio envolvendo seu filiado. Em nota enviada à CNN Brasil, o Diretório Municipal do PT de São Paulo informou que tomou conhecimento dos fatos e que acompanhará o andamento das investigações.
“Sobre a prisão do vereador Senival Moura, ocorrida na manhã desta quinta-feira, 25 de junho, o Diretório Municipal do PT de São Paulo tomou conhecimento dos fatos e acompanhará atentamente o desenrolar das investigações.”
A direção partidária anunciou que encaminhou o caso à Comissão de Ética, conforme previsto no Estatuto do PT. Segundo a nota, o procedimento pode levar a medidas disciplinares, incluindo afastamento cautelar e até a expulsão do filiado, com garantia de amplo direito de defesa, contraditório e devido processo legal.
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“O Diretório Municipal do PT de São Paulo não compactua com qualquer prática ilícita e reafirma que todos os fatos devem ser rigorosamente apurados pelas autoridades competentes, com respeito à lei e às garantias constitucionais.”
Ainda na nota, o PT reiterou seu “compromisso intransigente com o combate ao crime organizado”, declarando apoio a ações das forças de segurança, como a Operação Carbono Oculto, e defendendo a aprovação, pelo Senado Federal, da PEC da Segurança Pública proposta pelo Governo Federal.
Promotor aponta que PCC mira licitações milionárias e pede pente-fino no setor
Em entrevista coletiva sobre a Operação Última Parada, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya descreveu o enfrentamento à infiltração do PCC em órgãos e contratos públicos como um dos maiores desafios das autoridades de São Paulo. Segundo ele, o Ministério Público vem alertando há tempos sobre essa realidade.
“É um desafio enorme. Não quer dizer que ele não possa ser vencido. O Ministério Público vem fazendo essa advertência de que o crime organizado há muito tempo já está infiltrado nos poderes do Estado”, afirmou.
O promotor fez questão de esclarecer que o objetivo da facção não passa por assumir cargos eletivos ou comandar diretamente instituições. O interesse, segundo Gakiya, é financeiro: abocanhar uma parcela dos negócios públicos, especialmente aqueles que envolvem cifras expressivas.
“Isso não quer dizer que o PCC queira se tornar um partido político, um prefeito, um governador ou um vereador. Mas ele quer participar de uma fatia dos negócios públicos, dessas licitações milionárias”, disse.
Cooperativas transformadas em empresas abriram brecha para lavagem de dinheiro
A investigação revelou um padrão específico de infiltração. Segundo Lincoln Gakiya, antigas cooperativas do setor de transporte coletivo foram convertidas em sociedades anônimas e passaram a necessitar de capitalização. Garagens, pátios e outras estruturas operacionais demandavam investimentos que os antigos cooperados não conseguiam bancar sozinhos.
“Houve a necessidade de aporte de capital e aqueles cooperados não tinham recursos para isso. Surge então o crime organizado através de interpostas pessoas para integralizar esse capital e depois cobrar essa fatura”, afirmou.
Foi nesse vácuo que integrantes do PCC injetaram recursos por meio de familiares, laranjas e terceiros, passando a exercer influência sobre essas companhias. De acordo com o promotor, esse modelo já foi identificado em outras empresas do mesmo setor, algumas delas alvo de apurações anteriores por supostas conexões com membros da facção.
Subsídios milionários atraem interesse do crime organizado
Gakiya também destacou o volume financeiro que circula no mercado de transporte urbano como um fator determinante para o interesse criminoso. Além da receita oriunda das tarifas cobradas dos passageiros, as concessionárias de ônibus recebem subsídios de grande valor pagos pela administração municipal de São Paulo.
O promotor citou valores repassados pela Prefeitura de São Paulo a empresas do setor ao longo dos últimos anos como exemplo da dimensão econômica desse mercado. Para ele, esses montantes explicam por que o crime organizado investe tanto esforço para se infiltrar no segmento.
Promotor cobra revisão na fiscalização e defende pente-fino rigoroso
Diante do cenário apresentado, Lincoln Gakiya defendeu que tanto o poder público quanto o Ministério Público adotem medidas de contenção mais eficazes. O setor de transporte urbano, segundo ele, precisa ser submetido a uma varredura completa.
“É preciso que o poder público e o Ministério Público façam uma contenção. Está evidente que há infiltração do crime organizado em empresas que participam de licitações públicas”, afirmou.
A polícia apontou o vereador Senival Moura como elo entre o universo político, o transporte público e o PCC. As investigações seguem em andamento, e o caso agora tramita também na esfera disciplinar do PT, que promete responsabilizar o filiado caso os fatos sejam confirmados.
