Diante de um cenário eleitoral adverso, o partido do governo recorre ao velho truque de fabricar inimigos externos e tentar vencer no tapetão
Existe um roteiro clássico na política brasileira. Quando os números começam a apertar, quando a realidade das urnas se impõe sobre a narrativa oficial, o reflexo é sempre o mesmo: procure um culpado. De preferência, um que esteja longe o suficiente para não se defender — e assustador o suficiente para mobilizar instituições.
O PT acaba de executar esse roteiro com perfeição.
O Partido dos Trabalhadores solicitou ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, a instauração de um inquérito pela Polícia Federal para investigar supostos indícios de participação estrangeira nas eleições de outubro. O pedido foi incluído em uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental já sob relatoria do magistrado. Segundo o documento, a apuração deveria rastrear a procedência de verbas vindas de fora do país que possam favorecer uma candidatura específica.
Traduzindo: o partido que governa o país, que tem a máquina federal à disposição, que conta com o maior tempo de televisão e com a estrutura de uma coligação robusta, agora quer convencer o Brasil de que o problema não é a rejeição do eleitor — é uma conspiração internacional.
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Conveniente, não?
Entre os episódios listados pelo PT está a atuação da Rockbridge Network, entidade americana criada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance. A menção se apoia em falas de Renan Santos, postulante à Presidência pelo partido Missão, que mencionou uma suposta operação sigilosa de sustentação financeira ligada a interesses no setor de terras raras no território brasileiro.
O texto enviado ao STF também cita a cessão de material do site Brasil Paralelo e do Estúdio Quinto Elemento à Academia da Direita, iniciativa vinculada ao PL, além de anúncios pagos fora do país veiculados em contas do X favoráveis ao candidato bolsonarista.
Mas há um detalhe.
Nenhum desses elementos configura, até o momento, prova concreta de interferência estrangeira. São indícios genéricos, conexões indiretas e declarações de terceiros. O PT não apresenta a arma fumegante — apresenta uma tese que precisa de investigação para saber se existe. E pede essa investigação exatamente no momento em que o cenário eleitoral se torna mais hostil.
Coincidência de calendário? Jamais.
Em ação paralela, a equipe jurídica da candidatura à reeleição de Lula apresentou representação ao Tribunal Superior Eleitoral contra o senador Flávio Bolsonaro, o vice Alfredo Gaspar e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A acusação envolve abuso de poder político e econômico, além de uso irregular dos meios de comunicação. Segundo a petição, os filhos de Jair Bolsonaro teriam buscado respaldo do governo norte-americano para intervir na disputa, citando negociações com autoridades dos EUA, tarifas e sanções impostas ao Brasil e declarações sobre o sistema eletrônico de votação.
Agora compare.
O PT — o mesmo partido que nunca viu problema algum em manter relações estreitas com governos autoritários de esquerda pela América Latina, que celebrou alianças com Cuba, Venezuela e Nicarágua sem que ninguém falasse em “interferência estrangeira” — agora descobre que contatos internacionais são uma ameaça existencial à democracia. Mas só quando é o outro lado que os mantém.
A seletividade é o verdadeiro escândalo.
A pergunta que ninguém faz é simples: se o PT estivesse liderando com folga todas as pesquisas, essas ações judiciais existiriam? Se a reeleição de Lula fosse uma formalidade, o partido estaria preocupado com a Rockbridge Network ou com anúncios pagos no X?
A resposta é óbvia — e é exatamente por isso que ninguém faz a pergunta.
O que está em jogo não é a soberania das eleições brasileiras. O que está em jogo é uma estratégia de contenção de danos. Quando não se consegue convencer o eleitor, tenta-se anular o adversário. Quando não se vence nas urnas, busca-se vencer no tapetão. Quando o discurso não cola, fabrica-se um inimigo externo.
É velho. É previsível. E, infelizmente, funciona — desde que exista quem aceite o papel de árbitro parcial.
O PT não está protegendo a democracia. Está protegendo uma candidatura. E usar o STF e o TSE como instrumentos dessa proteção não fortalece as instituições — corrói a última fibra de credibilidade que elas ainda tentam sustentar.
