No mundo real, a Casas Bahia está em recuperação judicial. Fechou 298 lojas. Carrega uma dívida que faria qualquer CFO acordar em suor frio às três da manhã. E tenta, desesperadamente, preservar os cerca de 20 mil empregos que ainda existem.
Mas há um detalhe.
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Entrar no grupo Para a Justiça do Trabalho brasileira, o detalhe da sobrevivência da empresa é secundário. O que importa é o gesto. A proteção simbólica. A lacração jurisdicional.
A lógica invertida
O argumento da liminar é que as demissões coletivas teriam ocorrido sem negociação prévia com sindicatos. Pode até haver base formal para essa exigência. Mas o resultado prático é de uma perversidade impressionante.
Obrigar uma empresa em colapso financeiro a reintegrar milhares de funcionários de lojas que já não existem mais não protege ninguém. Não protege os reintegrados, que voltarão a uma folha de pagamento insustentável. Não protege os 20 mil que ainda trabalham, cujos empregos dependem do sucesso da reestruturação. E não protege o contribuinte, que invariavelmente paga a conta quando o Estado resolve brincar de empresário.
É como obrigar um paciente em UTI a correr uma maratona para provar que está saudável.
O padrão que não muda
A Justiça do Trabalho brasileira tem uma tradição antiga — e bem documentada — de ativismo que confunde proteção social com intervenção econômica. É uma instituição que, historicamente, privilegia a estabilidade do emprego individual mesmo quando isso significa a destruição de todos os empregos da empresa.
Agora compare: quando o assunto é a reestruturação de estatais inchadas, ninguém exige reintegração em massa. Quando o governo federal corta terceirizados por conveniência política, nenhuma liminar surge em 48 horas. Mas quando uma empresa privada, à beira do abismo, tenta reduzir custos para sobreviver, o Judiciário aparece para salvar o dia.
Não é coincidência. É seletividade.
A pergunta que ninguém faz
Se a liminar for mantida — e há razões sólidas para crer que será revertida, por se tratar de decisão de primeira instância com fundamentos frágeis diante da realidade da recuperação judicial — quem arcará com o custo? A juíza? O sindicato? O Estado?
Não. Quem paga são os 20 mil trabalhadores restantes, cujos empregos ficam mais frágeis a cada real desperdiçado em uma folha de pagamento artificialmente inflada por ordem judicial.
É o velho reflexo brasileiro: diante de qualquer problema, a resposta é uma decisão estatal. Mais intervenção. Mais regulação. Mais controle. Como se o mercado fosse um inimigo a ser domado e não o único mecanismo capaz de gerar a riqueza que paga os salários que a juíza quer proteger.
A liberdade econômica — inclusive a liberdade de uma empresa reestruturar suas operações para não morrer — não é um luxo ideológico. É a condição básica para que empregos existam.
Decisões como essa não protegem trabalhadores. Protegem uma narrativa. E narrativas não pagam contas, não mantêm lojas abertas e não preservam empregos.
Quando a última loja fechar e o último funcionário for dispensado — desta vez sem qualquer reestruturação possível — a juíza já terá passado para o próximo processo. Mas os 20 mil que poderiam ter sido salvos não terão para onde ir.