A pergunta que ninguém faz é simples: se os gastos são legítimos, por que escondê-los?
Mas há um detalhe.
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Entrar no grupo Só a Presidência da República — o Palácio do Planalto — torrou R$2,3 milhões em 12 cartões corporativos neste ano. Foram 2,2 mil compras registradas em 2026. E quase todas — pasmem — classificadas como sigilosas “por motivos de segurança”. Duas mil e duzentas compras. Sigilosas. Todas.
O cidadão que financia essa farra não tem o direito de saber o que está pagando. Isso não é transparência. É uma paródia de transparência.
A conta completa é ainda mais pesada
Quando se somam os cartões corporativos aos cartões da Defesa Civil — usados, em tese, para despesas emergenciais após desastres —, o total em 2026 chega a R$172,9 milhões. Dos quais R$139,4 milhões são da Defesa Civil.
Em 2025, os números foram ainda mais obscenos: R$105,4 milhões em cartões corporativos e R$329 milhões em cartões da Defesa Civil. Somados, mais de R$434 milhões bancados pelos pagadores de impostos.
E as viagens? Atualizadas nesta segunda-feira (15), as despesas do governo com deslocamentos dispararam para R$737 milhões desde o início do ano. Só nos últimos dez dias, foram R$61 milhões. Sessenta e um milhões em dez dias. Repita isso em voz alta para sentir o peso.
Agora compare com o discurso oficial de “responsabilidade fiscal” e “compromisso com o povo”. A dissonância é ensurdecedora.
Enquanto isso, na Câmara: a arte de não trabalhar
Se o Executivo gasta como se não houvesse amanhã, o Legislativo resolveu que amanhã também não precisa de trabalho presencial.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), oficializou o que já era prática: até o recesso legislativo, deputados podem votar pelo sistema Infoleg, direto do smartphone ou tablet, sem precisar pisar em Brasília. Desde a semana passada, o Plenário da Casa está às moscas.
É a quinta semana consecutiva com essa moleza vigorando. Para manter a aparência de alguma atividade, sessões deliberativas foram agendadas em todas as próximas semanas — inclusive na de São João. Restam quatro semanas de “trabalho” até o recesso. Todas com votação online. Com Copa do Mundo e festas juninas no calendário.
A reação nos bastidores foi previsível: grupos paralelos de deputados dedicaram a segunda-feira inteira a descer o bambu em Hugo Motta e na sua gestão da pauta. Críticas que, naturalmente, ficarão restritas aos grupos de WhatsApp — porque ir a Brasília para protestar, convenhamos, dá trabalho.
O país real, distante do poder
Enquanto o governo gasta às escuras e o Congresso funciona por controle remoto, o Brasil real segue cobrando a conta. O pré-candidato ao Planalto Renan Santos, em agenda no Pará, resumiu a experiência de rodar uma BR federal: “me fez ter saudades do Maranhão”. Quando esteve no Maranhão, havia criticado duramente as rodovias de lá. A conclusão lógica é que, em matéria de infraestrutura, o governo federal consegue decepcionar em qualquer Estado.
No Judiciário, o ministro Alexandre de Moraes rejeitou pedido da defesa de Eduardo Bolsonaro e manteve para hoje (16) o que se chama em Brasília de “rito condenatório” por suposta “coação”. Diz-se nos corredores que só falta oficializar a dosimetria. Quando a conclusão vem antes do julgamento, o nome disso não é Justiça. É encenação.
No TCU, a aposentadoria antecipada do ministro Augusto Nardes abre uma vaga destinada à Câmara — que precisará escolher um deputado para o posto. Mais um pedaço do Estado a ser repartido entre os de sempre.
E no Amapá, o Paraná Pesquisa aponta o ex-prefeito de Macapá, Dr. Furlan (PSD), com 64,3% das intenções de voto para governador, contra 26,1% do atual, Clécio Luís (União). Quando o incumbente perde por quase 40 pontos, não é pesquisa. É veredicto.
R$33,5 milhões em cartões corporativos. R$737 milhões em viagens. Sigilo sobre quase tudo. Congresso votando de casa. E o contribuinte? O contribuinte paga, cala e, se reclamar, é informado de que os detalhes são “sigilosos por motivos de segurança”. A segurança, aparentemente, é a do governo — nunca a do cidadão que financia a festa.