A pergunta que fica é inevitável: que tipo de compromisso com princípios cristãos leva uma emissora evangélica a se transformar em palanque de um candidato cujas bandeiras políticas frequentemente colidem com os valores defendidos por seu próprio público?
Republicanos, Hugo Motta e o rompimento com Flávio Bolsonaro
O contexto político por trás da manobra é revelador. A Record abriu espaço para Lula logo após o Republicanos — partido historicamente associado ao eleitorado evangélico — recusar uma aliança nacional com Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A decisão representa uma vitória do presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), apoiador declarado de Lula.
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Entrar no grupo A orientação de Motta se sobrepôs ao desejo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que trabalhava para que o Republicanos apoiasse Flávio em todas as 27 unidades da Federação. Uma consulta aos diretórios estaduais escancarou a divisão interna do partido: 17 defenderam neutralidade, nove apoiaram Flávio e apenas um se posicionou pela reeleição de Lula.
O precedente de 2018 e a ironia do roteiro repetido
O episódio evoca uma cena de 2018. Naquele ano, o então candidato Jair Bolsonaro (PL) faltou ao último debate presidencial do primeiro turno, organizado pela Globo, e apareceu simultaneamente em entrevista exclusiva na Record. A emissora de Edir Macedo serviu, naquela ocasião, de plataforma para Bolsonaro. Agora, o roteiro se repete — com a diferença de que Lula ocupa a cadeira que antes era de Bolsonaro. A coerência ideológica e de valores da emissora, como se vê, é volátil.
Trechos já divulgados e cenário eleitoral
A Record antecipou alguns trechos da entrevista gravada neste domingo. Em um deles, Lula abordou as investigações que envolvem seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.
No debate da Band, a ausência de Lula e de Flávio Bolsonaro reduziu o evento a três candidatos: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Romeu Zema, que inicialmente estava confirmado, desistiu neste domingo.
A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, 21, aponta Lula com 39% das intenções de voto. Flávio aparece com 33%. Na sequência, Caiado registra 5%; Renan, 4%; Zema, 3%; e Cury, 2%.
Fé ou conveniência?
A movimentação da Record é mais do que uma decisão editorial. É um gesto político que expõe a fragilidade do rótulo evangélico quando confrontado com interesses de poder. Uma emissora que se apresenta como cristã deveria, no mínimo, manter coerência com os valores que prega a seus fiéis — e não transformar sua grade de programação em ferramenta de campanha para quem quer que esteja mais próximo do poder no momento.