‘Safáris humanos’: livro revela que estrangeiros pagavam para matar mulheres e crianças durante o cerco em Sarajevo
Livro do jornalista Domagoj Margetic revela que estrangeiros pagavam fortunas para participar de safáris humanos e matar civis em Sarajevo
Por ContraFatos 07/05/2026 Atualizado em 07/05/2026
Mulheres correm por rua de Sarajevo durante tiroteio — Foto: AFP
Novo livro do jornalista croata Domagoj Margetic expõe detalhes macabros sobre como turistas abastados desembolsavam fortunas para atirar em civis durante o conflito na Bósnia
Uma revelação chocante emerge das páginas de “Pay and Shoot” (Pague e Atire, em tradução livre), obra do jornalista croata Domagoj Margetic. O livro detalha como estrangeiros ricos, entusiastas de armas e oportunistas participaram de verdadeiros “safáris humanos” durante o cerco a Sarajevo, na Bósnia, entre 1992 e 1996.
Valores pagos variavam conforme o alvo escolhido
Segundo a investigação de Margetic, os participantes pagavam 80 mil marcos alemães (aproximadamente US$ 53 mil na época) a sérvios para obter permissão de atirar em civis. O preço, entretanto, aumentava conforme o tipo de vítima. Para alvos do sexo feminino e jovens, o custo subia para 95 mil marcos alemães. Se a intenção era eliminar mulheres grávidas, o valor chegava a 110 mil marcos alemães.
Leitura
Havia ainda uma competição sádica entre os atiradores. “Ugljen também escreveu que os estrangeiros competiam para ver quem conseguia atirar nas mulheres mais bonitas”, disse Margetic ao jornal “The Times”, de Londres (Inglaterra).
Relatório de inteligência bósnio é a base da obra
A principal fonte do livro é um relatório de inteligência produzido pelo agente bósnio Nedzad Ugljen, morto em 1996. Em seus registros, Ugljen documentou informações coletadas junto a membros da milícia sérvio-bósnia, incluindo uma revelação particularmente perturbadora: um membro de realeza europeia teria figurado entre os atiradores.
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“Muitos deles me disseram que um membro de realeza europeia estava entre os atiradores. Ele chegava de helicóptero, ficava em Vogosca, perto de Sarajevo, e queria atirar em crianças”, disse Ugljen.
Conflito nos Bálcãs deixou 11 mil mortos só em Sarajevo
O cerco a Sarajevo foi um dos episódios mais trágicos do conflito nos Bálcãs, resultando na morte de 11 mil pessoas apenas na capital bósnia.
Documentário de 2022 deu início às investigações
As apurações sobre esses episódios brutais ganharam impulso com o lançamento do documentário “Sarajevo Safari”, produzido em 2022 pelo cineasta Miran Zupanič. A produção revelou que entusiastas de armas provenientes da Rússia, dos EUA, do Canadá e de outros países viajavam à capital bósnia para atirar em civis por diversão, desembolsando quantias ainda maiores quando pretendiam alvejar crianças e outros moradores da região.
Itália abriu investigação sobre participação de turistas
A Procuradoria de Milão (Itália) instaurou uma investigação diante da suspeita de que turistas italianos tenham pago até US$ 120 mil para participar dos “safáris humanos” durante o cerco a Sarajevo. Conforme o “Daily Mail”, a denúncia foi apresentada pelo escritor e jornalista Ezio Gavazzeni, com apoio do ex-magistrado Guido Salvini e da ex-prefeita de Sarajevo Benjamina Karic.
Os documentos apontam que os participantes teriam firmado acordos com o exército sérvio-bósnio, liderado por Radovan Karadžić, condenado em 2016 a 40 anos de prisão por genocídio e crimes contra a humanidade.
Rota de viagem e ligações com a extrema-direita
As investigações indicam que os turistas, supostamente vinculados a círculos de extrema-direita, partiam de Trieste rumo a Belgrado pela companhia aérea sérvia Aviogenex. Uma vez no destino, pagavam militares para participar de “fins de semana de tiro”. O assassinato de crianças tinha custo mais elevado, conforme revelou o jornal “El País”.
Mulheres correm por rua de Sarajevo durante tiroteio — Foto: AFP
Origem do esquema não foi na Sérvia
Apesar de os turistas efetuarem pagamentos a guias sérvios, a concepção do “safári humano” não nasceu na Sérvia. A ideia teve origem na Croácia, envolvendo Zvonko Horvatincic, que atuou para as forças de inteligência iugoslavas na Croácia antes das guerras da década de 1990.