Precedente: o motim bolsonarista de agosto de 2025
A controvérsia remete a um episódio anterior. Quando Jair Bolsonaro foi preso por ordem de Alexandre de Moraes, em agosto de 2025, senadores bolsonaristas promoveram um motim no plenário do Senado. Acorrentados, os parlamentares exigiram o impeachment de Moraes e foram duramente criticados por tentarem sequestrar a tribuna de Ruy Barbosa em momento tão delicado para a República.
Na ocasião, Davi Alcolumbre condenou a atitude com firmeza: “A ocupação das Mesas Diretoras das Casas, que inviabilize o seu funcionamento, constitui exercício arbitrário das próprias razões, algo inusitado e alheio aos princípios democráticos”.
Receba no WhatsApp as principais noticias do diaEntre no grupo do ContraFatos e acompanhe os destaques em primeira mao.
Entrar no grupo Recesso branco e o direito de parlar
O Senado encontra-se atualmente em recesso branco em razão das eleições. Com diversos parlamentares em plena campanha, o Congresso normalizou esse rito exótico pelo qual deputados e senadores continuam sendo remunerados, mas não exercem suas funções legislativas. Ainda assim, no Parlamento não deveria haver obstáculos para parlamentares que desejam parlar.
Sessões de discursos, mesmo que majoritariamente ignoradas pelas audiências em período eleitoral, sempre ocorreram no Senado durante campanhas. Trancar portas à chave e barrar pronunciamentos é, como o próprio Alcolumbre definiu no ano passado, “algo inusitado e alheio aos princípios democráticos”.
Direito à tribuna não pode ser suprimido
É legítimo questionar o conteúdo dos discursos e as intenções dos senadores que buscam a tribuna, porém jamais impedir um parlamentar eleito de discursar. O Senado tem prerrogativa de suspender votações durante períodos eleitorais, mas não pode vetar o uso da tribuna por seus membros.
O episódio é interpretado como mais um sinal de que os pesos e contrapesos da República foram danificados por inconfessos interesses comprados por Daniel Vorcaro, o banqueiro investigado por financiar festas com garotas de programa da Suíça e por pagamentos de propina — no Brasil e no exterior — a diferentes autoridades da República.