TCU quer gastar dinheiro público para erguer casas de luxo para ministros no Lago Sul de Brasília
TCU planeja construir duas residências oficiais para ministros no Lago Sul de Brasília sem estimar custo total das novas obras
Por ContraFatos 10/08/2026 Atualizado em 10/08/2026
Prédio Do Tribunal De Contas Da União (TCU)
Enquanto o país enfrenta restrições fiscais, Tribunal de Contas da União planeja construir residências em região nobre da capital federal — e ainda nem sabe quanto vai custar
A conta já começou a ser paga, mas o valor total permanece um mistério. O Tribunal de Contas da União (TCU) — órgão que, ironicamente, existe para fiscalizar o uso do dinheiro público — resolveu que precisa de duas novas casas para seus ministros. E não em qualquer lugar: no Lago Sul, uma das áreas mais nobres e valorizadas de Brasília.
Demolições já contratadas antes mesmo de qualquer licitação para construção
Embora o projeto das novas residências ainda esteja, segundo o próprio tribunal, em “fase de estudos preliminares” — sem processo licitatório aberto e sem sequer uma estimativa do custo total das obras —, o TCU já se apressou em gastar recursos com demolições nos dois terrenos adquiridos. Em outubro de 2024, a empresa Mega Retro Ltda. foi contratada por R$ 78,5 mil para derrubar uma das edificações existentes. Uma segunda ordem de serviço, emitida em 2025, autorizou a demolição de outra construção, com custo estimado em R$ 102,5 mil. Somados, são cerca de R$ 181 mil já destinados a preparar o terreno para moradias cujo preço final ninguém ainda ousou calcular — ou, talvez, divulgar.
Leitura
Terrenos cedidos pela União em troca de reformas em Belém
Os terrenos foram transferidos ao TCU em 2024, por meio de um acordo de cooperação técnica firmado com a Secretaria do Patrimônio da União. A justificativa? O tribunal alegou não dispor de imóveis funcionais suficientes para acomodar todos os seus ministros. Em contrapartida, assumiu o compromisso de reformar dois imóveis federais em Belém.
O Ministério da Gestão e Inovação explicou a lógica do arranjo: “Em contrapartida, a União não dispõe de recursos financeiros para reformar muitos imóveis que estão sem uso e se deteriorando”. Ou seja, o governo federal não tem dinheiro para manter seus próprios prédios, mas acha razoável ceder terrenos de altíssimo valor em Brasília para que um tribunal erga residências de luxo para seus membros.
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De um dos imóveis em Belém oferecidos como contrapartida, a reforma já foi concluída — o local abriga agora a Superintendência do Patrimônio da União no Pará. O segundo, que integra a sede do TCU no estado, segue em obras e terá uso compartilhado por outros órgãos federais.
Quatro apartamentos para nove ministros — e a solução é construir casas no bairro mais caro
Atualmente, o TCU dispõe de apenas quatro apartamentos funcionais na capital federal, distribuídos da seguinte forma:
Vital do Rêgo, Bruno Dantas e Augusto Nardes ocupam apartamentos funcionais do tribunal;
Antonio Anastasia vive em um apartamento cedido pelo Senado, enquanto aguarda a reforma da quarta unidade funcional;
Odair Cunha e Jhonatan de Jesus recebem auxílio-moradia;
Benjamin Zymler, Walton Alencar e Jorge Oliveira moram em imóveis particulares e não recebem o benefício.
A disparidade entre os ministros evidencia que há quem viva sem qualquer auxílio habitacional do tribunal. Ainda assim, a solução encontrada não foi racionalizar custos ou ampliar os apartamentos existentes, mas sim erguer novas residências oficiais em um dos endereços mais caros do país.
Sem critérios definidos e sem transparência sobre quem vai morar nas novas casas
Questionado sobre quem poderá ocupar as duas novas residências, o TCU informou que ainda não definiu os beneficiários nem os critérios de escolha. Segundo a Corte, a destinação dos imóveis obedecerá a uma resolução interna que regulamenta a concessão de moradias funcionais a ministros, ministros-substitutos e integrantes do Ministério Público junto ao tribunal.
As informações sobre o projeto foram publicadas pela Folha de S.Paulo na sexta-feira, 7 de agosto. A ausência de estimativas de custo, a falta de licitação e a indefinição sobre critérios de ocupação compõem um quadro que destoa do papel institucional de um órgão que deveria ser exemplo de austeridade e responsabilidade no trato com recursos públicos. Afinal, quem fiscaliza o fiscalizador?