Um dos episódios mais sangrentos ocorreu em 12 de outubro, nas proximidades de um hospital em Cidade de Gaza, quando forças do Hamas entraram em confronto com membros da família Doghmosh, uma das mais influentes do enclave. Imagens divulgadas mostram integrantes da família sendo executados em praça pública, gerando pânico entre os moradores e alimentando o medo de um conflito civil generalizado.
Rivalidades familiares e desconfiança crescente
Segundo relatos de testemunhas, terroristas mascarados cercaram o hospital jordaniano e exigiram a entrega de dez membros da família Doghmosh, acusados de colaboração com Israel. Diante da recusa, houve tiroteios, incêndios e mortes. “Eu ouvia tiros por todos os lados”, contou Sobheia Doghmosh, parente de vítimas. “A área agora está completamente cercada por homens armados.”
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Entrar no grupo No dia seguinte, o conselho central da família divulgou nota acusando o Hamas de promover uma “campanha de intimidação e violência”, negando qualquer envolvimento com o assassinato de militantes do grupo.
A repressão também atingiu outras famílias. Em Deir al-Balah, o Hamas enfrentou integrantes da família Abu Samra, e antes mesmo do cessar-fogo já havia travado combates com a família Al Majaydeh, que mantém laços com o Fatah e a Autoridade Palestina. Após intensos confrontos, os Al Majaydeh se renderam e declararam lealdade ao Hamas, entregando suas armas.
Hamas busca justificar ofensiva interna
O Ministério do Interior de Gaza afirmou que as ações visam combater gangues e saqueadores que se aproveitaram do caos da guerra. A unidade Rada’a, braço de segurança do Hamas, declarou ter recuperado posições estratégicas e prometeu agir “com punho de ferro” contra quem ameaçar a estabilidade do enclave.
“Khaled Qaddoumi”, representante do Hamas no Irã, afirmou ao Wall Street Journal que as forças foram mobilizadas para “restaurar a ordem” e “espalhar o senso de paz e estabilidade” após a guerra.
O grupo já preparava, há meses, uma reestruturação de suas forças policiais, segundo Husam Badran, membro do gabinete político do Hamas. O objetivo seria conter abusos de preços e saques durante a crise humanitária.
Analistas veem risco de guerra civil
Especialistas alertam que a repressão pode levar Gaza a um colapso interno. “Eles têm medo de uma guerra civil. Isso é muito perigoso. Já começou”, disse ao Wall Street Journal o advogado Mohammad Hadieh, de Gaza. Estima-se que grandes famílias representem cerca de 30% da população, tornando o equilíbrio de poder ainda mais delicado.
Relatos apontam que Israel tenta explorar essas divisões, oferecendo apoio a grupos locais. Nizar Doghmosh, líder familiar, contou ter recebido ligações do exército israelense pedindo ajuda para estabilizar bairros — proposta que ele recusou. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirmou o apoio ao grupo Abu Shabab, enquanto as Forças de Defesa de Israel evitaram comentar o caso.
Contexto político e reação internacional
Desde o ataque de 7 de outubro de 2023, quando o Hamas matou 1,2 mil pessoas e sequestrou 251 reféns em Israel, o grupo vem perdendo credibilidade entre os próprios palestinos. A destruição da infraestrutura, o bloqueio humanitário e a crise econômica fragmentaram o movimento em células regionais, minando seu controle político.
Analistas como Hasan Abu Hanieh, especialista em movimentos islâmicos, avaliam que o Hamas reagirá com mais brutalidade. “O Hamas será ainda mais agressivo agora para provar ao mundo exterior que ninguém pode removê-lo”, afirmou ao Wall Street Journal.
Na segunda-feira (13), Donald Trump declarou que o envio das forças do Hamas para restaurar a ordem foi feito “com consentimento internacional”. No dia seguinte, o ex-presidente afirmou: “Eles vão se desarmar. E se eles não se desarmarem, nós os desarmamos.”
Disputa pelo futuro de Gaza
Mesmo enfraquecido, o Hamas não demonstra disposição de abandonar o poder. “Embora o grupo esteja muito mais fraco do que há dois anos, eles não vão desistir e vão desmantelar esses grupos”, avaliou Michael Milshtein, ex-chefe de assuntos palestinos do exército israelense.
Enquanto Israel insiste que o Hamas deve ser removido, parte dos analistas defende que apenas a Autoridade Palestina poderia assumir o controle do território — hipótese rejeitada por Netanyahu, que acusa o grupo de “corrupção e incompetência”.